Periodicidade de publicação de poemas

Caros leitores:
Espero que desfrutem na visita a este espaço literário. Este sítio virtual chama-se “Maria Mãe” e tem como página principal os poemas de Maria Helena Amaro.
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sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

Conselhos


(Fotografia de António Sequeira)

Rasga a memória. Sê forte. Não hesites.
Passado velho, é velho, já esquece.
O presente é novo e não merece
que tu recordes horas velhas e tristes.

Rasga a memória. Sê dura. Não medites.
O que passou, passou, não permanece,
na velha teia que a maldade tece,
não sofras, não te exaltes, não te irrites.

Rasga a memória. Sê calma, se insistes 
a recordar todas as horas tristes,
a tua alma cristaliza, envelhece...

Rasga a memória. Sê crente. Esses convites
que vêm ter contigo são despistes
à paz, à tua fé, à tua prece.

Maria Helena Amaro
Outubro de 2014.


terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Estado


(Ilustração de Maria Helena Amaro)

Já perco de memória os meus poemas.
Já não retenho letras e canções.
Falo com Deus e com os meus botões.
Já adormeço entre noites e penas.

Já não escuto com paciência histórias
de poder, de riqueza e de vaidade.
Já não aceito tanta vulgaridade
que se constrói com loas e glórias.

Vejo  morrer amigos e parentes.
Quebram-se as unhas e oscilam os dentes.
Sinto aos poucos que a vida se esvai.

Apenas retenho na lembrança
dos tempos distantes de criança
o rosto e o sorriso de meu pai.

Maria Helena Amaro
12/8/2013

sexta-feira, 15 de abril de 2016

Memórias


(Ilustração de Maria Helena Amaro)

Já não caminho. Arrasto-me nos tempos,
que os meus pés encontram embaraços.
Nada retenho. Mas, carrego nos braços,
o mais gigantesco dos tormentos.

São minhas forças o céu, a luz, os ventos,
com eles vou na rota dos meus passos.
Procuro reatar antigos laços
que na memória já se esboçam lentos.

Ainda sei quem sou. Mas os lamentos
que me vêm chamar os sentimentos,
de uma vida que vivi noutros espaços.

São carga dura: são duros, violentos,
pois são no caminhar impedimentos
que me conduzem a momentos devassos.

Maria Helena Amaro
1/12/2012

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Memórias


(Ilustração de Maria Helena Amaro)

Choraram os meus olhos...
a alma estremeceu...
por muito que amei,
eu esqueci...
Um punhado de abrolhos,
mas eu sei,
que o melhor de ti
foi meu...

Emudeceu meu rosto
a vida estarreceu
por muito que te amei
eu me perdi...
destinos se cruzaram
noutro destino ateu...
mas eu sei
que o melhor de ti
foi meu...

Maria Helena Amaro
13/08/2010 

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Memória - 1957 - 1961


(Ilustração de Maria Helena Amaro)

Vinham as tuas cartas... Eu sorria,
mas tinha medo do «sim» ao responder...
E perguntava a Deus: «Que hei de fazer?»
Mas Deus, enfim, não respondia.

Então ficava de olhos alongados,
a descobrir-te além do oceano...
Cada dia, cada mês e cada ano,
em viagens com fins ignorados.

O teu regresso era quase incerteza,
o teu amor era apenas miragem,
a tua ausência verdade anunciada...
«Amar ou não amar», subtileza
Esperar... Não esperar... ? Mera chantagem...
Quando voltaste tudo foi alvorada!

Maria Helena Amaro
12/08/2010

sábado, 19 de dezembro de 2015

II Memória - Agosto 1962


(Ilustração de Maria Helena Amaro)

Comunicava contigo o tempo inteiro,
e pedias que fosse do teu lado,
no teu passo tão leve, tão ligeiro,
na orla do mar sempre agitado.

E, eu lá ia, a tentar seguir-te,
no meu andar sereno e arrastado.
«Devagar... devagar...» sempre a pedir-te,
alma aflita e coração cansado.

Então sorrias, dizias divertido:
«- Sem queixinhas, sem penas e sem mágoa,
só mais um pouco, não quero ouvir gemido,
faz um pouco de esforço para vencer a água...»

Sempre foi assim a nossa vida,
eu ao teu lado a caminhar depressa
porque a vida fugia sem parar...

Ventura, com esforço, conseguida,
com rigor, com ternura, com promessa,
mas sempre conjugando o verbo Amar!

Maria Helena Amaro
Agosto, 2010

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

I Memória - 1961 - Agosto


(Fotografia de António Sequeira)

Era tão jovem, carente, tão menina,
tão ciosa de sonhos e desejos,
que me assustavam de todo esses teus beijos,
e as promessas de ventura divina.

"Prender ou não prender" era a questão
e todo o dia perguntava ao destino,
se o meu coração dito peregrino,
iria ter, enfim, uma prisão.

O que achaste em mim, não quis saber.
Era já grande a dor de te perder,
de me trocares por um sonho ligeiro.

Sem condições vivi a minha sorte.
E mesmo agora depois da tua morte,
és para mim o meu amor primeiro.

Maria Helena Amaro
Esposende, agosto de 2010

sábado, 5 de dezembro de 2015

Memórias


(Quadro a óleo de Maria Helena Amaro)

Deslizava o carro lentamente
pela marginal até ao mar...
Ias a sorrir, a conversar...
Tantos projetos tínhamos em mente!

Eu escutava, serena, paciente,
confiante no teu saber e gosto
Vinham os teus dedos afagar-me o rosto
numa carícia enternecida e quente.

Ficávamos assim horas perdidas,
o mar era o sal das nossas vidas
e o Amor a nossa embarcação...

Horas tão ternas não serão esquecidas
O mar gravou-as em ondas repetidas,
ai essas horas, não se esqueçam, não!

Maria Helena Amaro
Julho, 2010

sábado, 8 de fevereiro de 2014

Registo II




















(Ilustração de Maria Helena Amaro)
 

Ficou o cordel na minha mão
o cordel de balão
para eu encher de Amor.

Era afinal o cordel da vida
para prender-me a alma
sem medida...

Procurei a cor do meu balão...
O vermelho encontrei...
De nova lá fui com o cordel
da vida...
Corri e não parei:
Hoje
penso tantas vezes
(e a saudade na minha alma acende...)
Que afinal naquele dia
não te encontrei
porque o destino
tanto engano
desprende!
Ficou-me o registo
naquele pedaço de papel
«grito de alguém,
silêncio que a alma não entende!»

Afinal...
Registo com ternura
o teu rosto
tonto de luz e vida
a desaparecer por entre a multidão
no fundo da Avenida!

Maria Helena Amaro
Maio, 1997

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Registo I



(Ilustração de Maria Helena Amaro)

Naquele maio fui à tua procura
vestida de azul
calçada de branco
enfeitada de prata...

Fui à tua procura
doida de sonho por entre a multidão.
Não era amor, não era,
era apenas esperança.
O meu riso era riso de criança
que retém um balão...

Seguiste, então, de rosto esfusiante,
tão bem acompanhado...
Larguei o meu balão!
Ficou só o cordel na minha mão
e eu parada...
Nunca mais esqueci
o ondular da tua capa de estudante
a desaparecer tonta de dança e vida
no fundo da Avenida!

Maria Helena Amaro
Maio, 1997

sábado, 2 de novembro de 2013

Memória (a uma amiga)



(Ilustração de Maria Helena Amaro)

Grávida de muitos meses
sentia a barriga enorme
a roçar o fogão...
Cansada da viagem,
carregando na alma,
o amargor de dúvida
e o sentido da vida
sem razão
ficou parada,
olhos, húmidos de dor
a percorrer o chão...
Então
o marido entrou
e numa voz pausada
disse com firmeza
e lentidão:
Não quero que lhe falte 
nada!
Estremeceu.
A face retesada
- face de virgem que nem era feia-
e começou a preparar a ceia.
O marido
não queria que lhe faltasse nada!
A ela
de barriga à boca
prestes a rebentar
tinha esquecido...
Mas à amante
que de viagem chegara enjoada
olhar fingido
de raposa matreira
à procura de caça
(a caça era o marido...)
Não queria que faltasse nada!

Pousou as mãos
silenciosamente
sobre a barriga...
Duas lágrimas rolaram
e foram saltitar
em riscos sobre a mesa...

O marido saiu.
E ela ficou suspensa
entre o céu e a terra...
Teria que escolher.
O filho ia nascer...
Nascer sem ter o pai?
O problema eterno!
E ela ao escolher
para que o filho ao nascer
tivesse uma família
escolheu o inferno!


Maria Helena Amaro
setembro,1988
(Premiado no Concurso Novos Poetas)



quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Quando eu nasci
















(Ilustração de Maria Helena Amaro)

Quando eu nasci
ninguém sorriu...
Minha mãe
chorou
e disse em voz dorida:
É mais uma mulher!
Já há tanta infeliz
a sofrer nesta vida!

Quando eu nasci
ninguém cantou...
A minha avó 
a tal Ana Pedreira
fez um espanto
e num jeito muito seu
de voltejar a saia
disse à maneira:
Ah, é uma menina
Deus lhe dê a água do baptismo
e a ponha no Céu...

Quando eu nasci
ninguém dançou...
Meu pai
de rosto grave e sério
aceitou a menina
pensando no primeiro filho
varão nascido morto
e já no cemitério...

Quando eu nasci
ninguém  sonhou...
Só  a parteira
Dona Lina Grazina
me ergueu nos braços
ainda húmida do ventre ensanguentado
e disse com ternura:
Olhem só isto
Mas que linda menina!
Que Deus seja louvado!
Pensando numa neta desejada
beijou-me toda
lavou-me 
vestiu-me
deitou-me docemente
junto da minha mãe
e rematou:
Já que ninguém te fada
que Deus te fade bem!

Quando eu nasci
ninguém me recebeu...

Só tu Lina Grazina
pela tua bondade
Deus te fade no Céu!


Maria Helena Amaro
Agosto, 1988
Esposende  

domingo, 7 de abril de 2013

Memória (2010b)


(Ilustração de Maria Helena Amaro)

Quando a doença se apossou de ti
e tornou a tua vida num tormento,
eu pensei que era abato de momento
e em vielas de esperança me perdi.

Escureceu o céu; então eu vi
com agrura e desalento,
o desencanto de tanto sofrimento,
horas amargas que não mais esqueci.

Tudo se fez e nada foi perfeito,
pois prolongar a vida desse jeito
é manter uma ilusão dia após dia...

Deus teve dó, Ofereceu-te o Seu Peito
aconchegou-te com Amor, no teu leito
Até que chegue a Santa Aleluia!

Maria Helena Amaro
Inédito, 29/o3/2010

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Memória (2010a)



(Fotografia de António Sequeira)

Deus tocou o meu destino, a minha sina
e caminhei na vida do teu lado,
e ao recordar os dias do passado,
amei-te desde os tempos de menina.

Fiz de ti uma ave columbina...
Fiz de ti um sonho todo alado...
Tu foste o meu primeiro namorado,
a minha rua, escada em serpentina.

Na idade das grandes ilusões,
pus de lado as minhas opções,
e abri-te meus braços em ternura.

Vivi contigo sonhos  e desejos:
Foram para ti os meus primeiros beijos
e as minhas grandes horas de ventura!


Maria Helena Amaro
Inédito, março de 2010. 

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Memórias - II (2009)


(Ilustração de Maria Helena Amaro)

Eras de todos o mais divertido,
alegre, folgazão, tão galhofeiro,
olhos gaiatos no rosto tão trigueiro,
a discutir em frases sem sentido.

Entravas pela casa a toda a hora:
«Helena! Ó Helena onde te encontras»
«Já foste sair a ver as montras?»
«Se não vens já, então eu vou embora!»

«Ó filha este rapaz é uma peste
vê lá tu a confiança que lhe deste»
- diziam receosos os meus pais.

Eu respondia muito à minha maneira:
Somos amigos... é tudo brincadeira.
Casar com ele? Não, nunca, jamais!

Maria Helena Amaro
Inédito, junho, 2009
 (recordando junho de 1959)
  

domingo, 3 de fevereiro de 2013

Memórias I




















        (Ilustração de Maria Helena Amaro)


Foste para mim uma miragem,
um encanto, um enleio... que sei eu?
talvez um amor que não nasceu
e pus de lado na rota da viagem.

Retenho na memória  esse teu rosto
mistura de verdade e garridice,
avesso a galanteio e à tolice,
mas cioso de esconder todo o desgosto.

Revejo o teu olhar inteligente
a brandura da tua voz pousada
saber estar... saber dizer... saber pensar.

Na tua vida tornei-me toda ausente
Quis só fugir da tua larga estrada
Deixei-te só. Soubeste perdoar?

Maria Helena Amaro
Inédito, dezembro de 2009

domingo, 16 de dezembro de 2012

Memória - 2009



(Fotografia de António Sequeira)


Não quis o sonho
Rejeitei o sonho
Fui à procura do certo
e da verdade
Enchi a alma de poemas benditos
construi certezas vigorosas
amei a vida
perdi-me na cidade.

Se voltasse de novo
àquele tempo
eu agarrava o sonho
não rejeitava o sonho.
diria os poemas da minha alma
e entregava a Deus
o meu destino.

Ficou-me na memória
um sonho rejeitado
que podia ter sido
na minha vida um hino!

Maria Helena Amaro
Inédito, maio 2009




terça-feira, 12 de junho de 2012

Memória II

(Ilustração de Maria Helena Amaro)

Perguntaste à memória
mas a memória já não responde
e se responde
já não é
o que era...

Baralha nomes, rostos e pessoas
esquece datas
e lembra
o que não queres...

Perguntaste à memória...

Maria Helena Amaro
Inédito, 10 de março, 2005

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Memória

(Fotografia de António Sequeira)

Tu fechavas os olhos
e cantavas
Erguias os braços como asas
e o teu xaile negro
abria-se em flor...
Era papoila, violeta ou dália?
Na plateia
o povo sussurrava
«Amália, Amália, Amália!»


Maria Helena Amaro 
Inédito, outubro, 2005