Periodicidade de publicação de poemas

Caros leitores:
Espero que desfrutem na visita a este espaço literário. Este sítio virtual chama-se “Maria Mãe” e tem como página principal os poemas de Maria Helena Amaro.
Mostrar mensagens com a etiqueta Dor. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Dor. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Dor


(Fotografia de António Sequeira)

A dor é persistente, ferida, dura,
como rude montanha a escalar.
Lá no cume tem raios de luar,
mas, na base há noite fria, escura.

A escapada é morosa, insegura,
tem laivos de tristeza a suspirar.
O corpo velho sente a alma a levitar
numa dança sem voz, serena e pura.

A escalada da dor exangue dura,
permanece, na vida, não se cura,
é deusa, enorme, como o mar.

É um estado de pesquisa, de procura.
Não há nela esperança de ventura,
mas no cume há o sol a espreitar.

Maria Helena Amaro
Outono, 2014.

sábado, 6 de janeiro de 2018

Luto


(Ilustração de Maria Helena Amaro)

Rugia o vento e tudo avassalava.
Caía a chuva grossa, persistente.
Fevereiro frio, de inverno impenitente.
Mágoas sem nome que a alma estilhaçava.

Não era eu que chorava e gemia.
Naquela tarde de duro temporal.
Tonta de dor no negro funeral
Era a minha alma que contigo partia.

Não fiz o luto. Não aceitei fazê-lo.
Tornou-se a mágoa um duro pesadelo.
Aprendi a caminhar mendiga e só...

Aquele dia... eu não posso esquecê-lo...
Eu tinha o teu amor... não quis perdê-lo.
Sabe-me a vida a noite, a dor, a pó.

Maria Helena Amaro
Novembro de 2014.

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

Luto


(Fotografia de António Sequeira)

Não fiz o luto. Não aceitei a morte.
Fiquei parada a meio da viagem.
No cais da vida, na tua bagagem.
Nada ficou que preencha ou conforte.

Não fiz o luto. Não aceitei a morte.
Fiz da tua partida uma miragem.
Ao desalento prestei a vassalagem.
Estrela morta sem roteiro, sem norte.

Não fiz o luto. Não aceitei a morte.
À doença chamei má sina, sorte.
Perdi o sonho, a crença e a coragem.

Não fiz o luto. Não aceitei a morte.
Estás comigo em pintura, em recorte.
Alma com alma, em perene mensagem.

Maria Helena Amaro
26/01/2014 

domingo, 24 de setembro de 2017

A quem sofre - ou não sabe sofrer


(Fotografia de António Sequeira)

A dor faz de ti alma embotada,
indiferente como um balão vazio,
insensível ao calor e ao frio,
fogueira morta ou velinha apagada.

És pedra tosca rolando na estrada
num grito, num protesto ou desafio...
Água lodosa de estagnado rio,
barco parado em viscosa enseada.

Alma embotada não sabe o que quer
Astro celeste em corpo de mulher,
cato de espinhos em rota de deserto.

Alma embotada é um estranho ser.
Nada que vê ela deseja ter.
Apenas teme que a dor ande por perto.


Maria Helena Amaro
14/01/2014


sábado, 7 de janeiro de 2017

Finados - «Julho 1966»


(Ilustração de Maria Helena Amaro)

Morria a minha filha, antes de ter nascido...
Eu perguntava a Deus: «O que fizeste dela?»
Morria a minha filha! Fechava-se a janela.
De tanta esperança bela que eu tinha vivido.

Fechou-se no meu ventre, sem a ter conhecido...
Sem a ter embalado numa canção singela...
Momento de dilúvio, tempestade, procela...
Agonia de morte sem gritos, sem gemido.

Verónica Maria era o nome escolhido
em silêncio de paz e amor tão sentido,
que esse nosso amor, era amor sem querela.

Em troca desse amor, que dei ao meu marido?
Agonia, tristeza, tanto sonho perdido.
Eu perguntava a Deus: «O que fizeste dela?» 

Maria Helena Amaro
Braga, 1/11/2013

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Dor


(Ilustração de Maria Helena Amaro)

A maior dor é a silenciosa
a que ninguém sabe, a que ninguém vê.
A que surge sem saber porquê
e que permanece, em nós, muda, teimosa.

A maior dor é aquela que nos prende
a um destino árido e deserto.
Mesmo que alguém nos esteja por perto.
Que a dor não se conhece, nem se entende.

A maior dor é aquela que não grita.
Que se esconde e na alma palpita
e cresce longa como erva daninha.

A maior dor é a que não tem norte.
Nada há que a vença, que a corte.
Permanece em mim, é tão minha.

Maria Helena Amaro
07/06/2013

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Dor


(Ilustração de Maria Helena Amaro)

Alguém quis destruir o nosso Amor...
Abandono? Traição ou adultério?
Na nossa vida foi caso muito sério:
hipocrisia, desaire ou despudor?...

A promessa da vida foi valor
da harmonia; a paz foi refrigério;
a sensação de infâmia, vitupério
tornou-se numa chaga, espanto e dor.

Desvairo, desilusão, tortura,
um pedaço de negra desventura,
no caminho da vida sem escolhos...

Mandou Deus para nós essa amargura
foi sol de muita força, pouca dura
porque nunca toldou os nossos olhos.

Maria Helena Amaro
Agosto, 2010



quarta-feira, 22 de abril de 2015

Dor


(Ilustração de Maria Helena Amaro)


Era miúda quando ouvi dizer
a alguém a quem me apresentaram:
- Linda pequena! Que formosa mulher! -
E pouco a pouco os meus anos passaram.

Depois mais tarde, um pouco mais crescida,
esse mesmo alguém olhou-me com ternura
Não me achou bela, não me ofereceu ventura 
nem de beleza me disse ser colorida...

Eu vi entrar meu rosto reflectido
no raro espelho das almas infelizes
e minha alma soltou débil gemido...

Minha beleza tinha-a levado o tempo
Mas dentro de mim ficaram as raízes
duma beleza feita de sentimento!

Maria Helena Amaro
13/04/1955

sábado, 10 de novembro de 2012

Dor (nas tuas mãos)


(Ilustração de Maria Helena Amaro)


Nas tuas mãos inertes e vazias
restam as cinzas da fogueira apagada.
Foram-se as labaredas. São tão frias,
estas horas que esperam madrugadas!

Foram-se também as alegrias,
o repicar da festa anunciada...
Sonhos, anseios, promessas,  fantasias
de uma vida serena e demorada.

Tudo se foi em louca revoada
na voragem triste  destes dias
na certeza que é ida sem regresso.

Como posso então ficar calada
ao descobrir o fosso onde te enfias?
Canto à vida a minha dor em verso!


Maria Helena Amaro
Inédito, fevereiro 2009.

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Dor/recordação

(Ilustração de Maria Helena Amaro)


É uma história que não quero contar
que não quero dizer ou comentar,
porque a noite se fez
na minha vida...
Era uma noite de Verão serena e quente
que falava de estrelas e luar...
Menina eu era
confiante nas estrelas
com a alma cheia tão vizinha do céu...
Se fosse cega
não teria visto...
se fosse muda não teria chamado...
se fosse surda não teria ouvido...

É uma história que não quero contar,
imagem negra que quero apagar
e não consigo porque tem vida e cor...

Onde ia eu para morrer assim?
Alguém invadia o meu jardim
e arrancava de mim uma flor!

Maria Helena Amaro
Inédito, novembro de 2008.

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Dor VII

(Ilustração de Maria Helena Amaro)


A dor já não me dói
é mágoa sem raízes.
O que me abrasa
e que corrói
são cicatrizes...

A morte não me assusta
nem me mata
A morte pode ser aleluia...
Apenas um suspiro
Apenas um esgar
e faz-se Dia!

Maria Helena Amaro
Inédito, março de 2008.

sábado, 30 de junho de 2012

Dor (VI)

(lustração de Maria Helena Amaro)



Chamo-te em voz alta
Toco-te no ombro
Repito a palavra feita para nós
como senha ciciada na dor.
Tento fugir,
mas a sombra tapa-me o caminho.
É a saudade que chama por mim
e se lhe fujo
acorrenta-me ao chão.
Talvez o meu amor
seja a semente
que vai morrer de frio
sem dar flor...
regada com a água dos meus olhos
em negra escuridão.

Maria Helena Amaro
Inédito, maio, 2010 

sábado, 12 de maio de 2012

Dor (V)


(Fotografia de António Sequeira)

Ergo-me
ao amanhecer
com uma lágrima
pendurada
nos olhos...

Morre-me o sorriso na boca
e abstenho-me
de cantar a vida...


Fecho e abro as mãos
repetidamente
como se quisesse
tomar os movimentos...

Não me perguntem nada.
Só tenho para contar
os meus lamentos...

Maria Helena Amaro
Inédito, julho, 2003  


sábado, 5 de maio de 2012

Dor (IV)


(Fotografia de António Sequeira)
Na noite que me envolve
quisera acreditar
que o Sol nunca se pôs...
Quisera acreditar...
Perdi a fé em ti,
talvez a confiança...
Todos os dias
esfarrapo um pouco
este meu jeito
etéreo de criança.

Todos os dias
quisera acreditar...

Maria Helena Amaro
Inédito, julho, 1998

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Dor (III)


(Fotografia de António Sequeira)

Há na alma tormentos,
que ninguém sabe, ninguém ouve,
ninguém vê …
A alma entorpecida pergunta a Deus:
«- Porquê? Porquê? Porquê?»

Não há na vida
ninguém que a escute,
compreenda ou trate,
e a alma entorpecida,
grita na escuridão,
em que se envolve:

«- Meu Deus, meu Deus
por que me Abandonaste?»

Sem esperança,
suspensa de um gemido,
na Quaresma lilás,
apenas ouve o eco repetido!




Maria Helena Amaro
Inédito, março, 2010

segunda-feira, 26 de março de 2012

Dor

(Fotografia de António Sequeira)
Tu não levas a Cruz
nem arrastas a Cruz…
É a Cruz que te leva
e te vai sacrificar
no cimo da montanha
onde se avista a Luz…

É a cruz que te leva
ao sopé da montanha
mesmo que os teus braços
quebrados e inertes
e as tuas pernas
vacilem na subida
é a Cruz que te arrasta
e te conduz à Vida!

Não protestes
deixa-te conduzir…
Depois da escalada
o Sol há-de surgir!


Maria Helena Amaro
Inédito, Quaresma, Março, 2009

quinta-feira, 8 de março de 2012

Dor (II)



Não sei por onde vou
De mãos suplicantes
A exigir um sonho que não tenho.
Não sei por onde vou; não sei de onde venho.
Alma descalça de farrapos vestida
Sinto-me morta
- E tanto busco a vida! –

Pergunto a Deus
A sós, angustiada,
A razão desta dor feita braseiro
E aos meus apelos rubros
Ninguém responde nada…
Depois
Lá vou de farrapos vestida
Sentindo a alma morta…

- E tanto busco a Vida!...

Maria Helena Amaro
In, «Maria Mãe», 1973

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Doença



É uma mágoa que se chama dor,
marasmo, letargia, desalento,
asa da noite, raiva, desalento,
desespero, abandono, dasamor.


Levas a cruz na rua tão estreita.
São teus olhos lagos congelados.
São teus braços ramos decepados
de certa olaia que foi bela e perfeita.



Nesta viagem de dor, eu vou contigo,
no que sofro, no que penso, no que digo,
no muito mais que fica por dizer…


Pensar que vais embora, não consigo.
Que dor! Que desespero! Que castigo!
Que modo tão cruel de te perder!



Maria Helena Amaro
Inédito – janeiro de 2009.