Periodicidade de publicação de poemas

Caros leitores:
Espero que desfrutem na visita a este espaço literário. Este sítio virtual chama-se “Maria Mãe” e tem como página principal os poemas de Maria Helena Amaro.
Mostrar mensagens com a etiqueta Recordação. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Recordação. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 16 de maio de 2017

Recordação


(Ilustração de Maria Helena Amaro)

O meu sorriso era o teu sorriso...
O meu perfume era o teu perfume...
Meu coração perdia todo o siso
porque me olhavas quente como o lume.

A tua luz era a minha luz
como tu fosses pavio de uma vela.
Eu ia atrás de ti... E ai Jesus!
Tu eras o mar alto, eu caravela.

O nosso amor cresceu sem desengano,
Num terreno, nem herege, nem profano.
Ao recordá-lo minha alma estremece...

Levou-te Deus. Eu ouso perguntar:
Se era assim, porque mo quis roubar?
É uma mágoa que vive, permanece...

Maria Helena Amaro
Maio, 2014.

quarta-feira, 18 de junho de 2014

Recordando


(Ilustração de Maria Helena Amaro)

Há tanto tempo que isso aconteceu
ainda eu era talvez uma criança...
Depois cresci... Quando cresceu a esperança
Morreu também com tudo que morreu...

Esse tempo... esse tempo feliz,
tempo da minha infância sonhadora
transformou-se desde a maldita hora
em que no sonho nuvens brancas desfiz...

Tudo passa! Tudo morre! Tudo vai!
Tudo mergulha nos escombros do tempo...
Só em mim não morre este lamento!
Só esta dor do meu peito não sai!

Maria Helena Amaro
1952
(Dedicada a uma amiga)

sábado, 13 de outubro de 2012

Recordação


(Fotografia de António Sequeira)

Estendi-me na areia
a ver o mar
saltitar
a meus pés
que perguntava: quem és? quem és?
e eu respondia
de forma tão brejeira:

Sou marina
filha de gaivota
de sargaço
de limo
de alga marinheira...
Nasci no mar
na boca da traineira
e no mar
lancei a minha frota...

Estendi-me na areia
ninguém veio buscar-me
e fiquei morta!

Maria Helena Amaro
Inédito, 2008 

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Recordação (noite)

(Fotografia de António Sequeira)


Quando a noite descer
vais acender
um círio branco
num certo altar vazio...

encher os olhos de água
o coração de mágoa
e o corpo de frio...

Vai um fantasma branco
bater à tua porta
sem paz e sem perdão

Não o deixes entrar
Diz-lhe que não
que não
que não!


Maria Helena Amaro
Inédito, janeiro, 2006 


quarta-feira, 23 de maio de 2012

Recordação

(Fotografia de António Sequeira)


Submerso no tempo
ficaste tu
como se nunca te tivesse visto
como se nunca te tivesse encontrado

Submerso no tempo
ficaste tu
como uma nuvem dispersa no espaço
como traço na poeira
da calçada
como um fio de metal
no estendal

Submerso no tempo
ficaste tu
Fecharam portas
cerraram cortinados
desceu o Sol
permaneceu a lua

Submerso no tempo
ficaste tu

Por todo o lado te procuro
como a vida
fosse passageira
e do outro lado do cais
eu te encontrasse
à minha espera...

Submerso no tempo...
Naquela manhã de Primavera.


Maria Helena Amaro 
Inédito, agosto, 1999.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

1º de dezembro


«Portugueses celebremos
o Dia da Redenção…»
Eu cantei
tu cantaste
nós cantámos
tantas vozes na noite
se encontraram
que as tábuas do Teatro Circo
tremeram
abanaram…


Nas frisas
camarotes
plateia e geral
Braga inteira sorria
aplaudia
de seda e brocado se vestia
para ir ver
os meninos e meninas
do Liceu Nacional
no grande recital…

Pela primeira vez
e só naquele dia
e só naquela festa
eu vestia
o meu vestido de organza branca
tão leve e tão comprido
para no Orfeão afinadinho
cantar toda a canção
em voz serena e lesta.


Era a canção
o bailado
a opereta
o fado
o auto
e a revista…


O gosto era diverso
pois diversa, então, era essa lista.

No fim da festa
lá pela madrugada
depois da Ceia
que se queria alegre
e bem regada
saíam os rapazes para a noite
a fazer as serenatas
e muitas zaragatas…
na rua
à luz da lua…

As meninas do Lar
espreitavam nas janelas
às escuras
e ouviam as mais belas canções
amores… simpatias… e ternuras.

E em segredo
a alma toda em medo
tentavam descobrir
na deusa escuridão
lá na janela
quem sabia cantar
tanta serenata bela…

Quando rompia o Sol
e despontava o dia
era a cidade
que acordava
e espantada via
a sorrir a falar
os jardins e as ruas
de pernas para o ar….

Mas ninguém ralhava
tudo se divertia
porque a cidade
era a namorada
a todo o instante
feliz enamorada
embrulhada
na capa de estudante…

Ai cidade do 1º Dezembro
dos caloiros
dos bichos
dos ceboleiros
batateiros
e nabeiros
a fugir todos os anos
dos nobres veteranos.

Ai tempo do liceu
tão recordado
tão distante
perdido nos anais
desta velha cidade…

Mas, se bem me lembro
envelheci com ela
e regresso com ela
na saudade
todos os anos
ao Dia do 1º de Dezembro.


Inédito – Maria Helena Amaro
Braga – 1 de Dezembro de 2009

domingo, 13 de novembro de 2011

Nevoeiro


O nevoeiro descia na cidade
e a Avenida tornava-se num cais,
de penumbra e mistério…
Então,
eu saía pressurosa para a rua
e ia tarde fora,
a descobrir os vultos
que cruzavam comigo
estranhos e ligeiros…
na penumbra tão nua.
Na névoa cerrada da Avenida,
deslizavam pessoas como nuvens
a tremer, aos pedaços,
em estranha corrida.
E, eu pensava:
- Lá vem, lá vem, agora é um fantasma…
um duende…uma fada…
uma mulher sem pernas…
ou um homem sem braços…
Se for uma criança,
há de trazer no cabelo caído,
uma trança com laços,
e um longo vestido…


Lá ia eu a sonhar maravilhas:
- é que os fantasmas,
os fantasmas vindos no nevoeiro,
descem à cidade enevoada,
certamente a chorar
à procura das filhas…
- é que os duendes que moram na Avenida
penduram-se nas tílias
e dançam em rodopio,
sem medo,
sem cansaço,
sem frio.
- é que as fadas que percorrem Braga, vestem de rendas, de tule e de brocados,
dançam à roda,
à roda, à roda,
nas ruas, nas varandas,
pendentes dos telhados.


No nevoeiro,
no nevoeiro da Avenida,
eu encontrava sempre
um pouco de mistério,
um nada de poesia…


O nevoeiro descia na Avenida…
Eu tinha quinze anos!
Linda cidade! Amor, sem desenganos!


O meu pincel era uma estrela,
a rua, a minha tela,
e na tarde enevoada e fria,
tão misteriosa, escura
surgia uma pintura.
Inédito – Maria Helena Amaro
Braga, novembro de 2009.