Periodicidade de publicação de poemas

Caros leitores:
Espero que desfrutem na visita a este espaço literário. Este sítio virtual chama-se “Maria Mãe” e tem como página principal os poemas de Maria Helena Amaro.
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segunda-feira, 28 de março de 2016

Lenda


(Ilustração de Maria Helena Amaro)

Não indago quanto amaste, quanto amei,
qual de nós amou mais ou amou menos.
Sei apenas que a ti toda me dei
nos momentos mais duros que vivemos.

Nas estradas que contigo partilhei,
entre risos e mágoas que sofremos,
sempre do teu lado me encontrei.
Discutimos, perdoámos, esquecemos.

Revejo os nossos filhos. Prémio santo!
Que Deus os cubra com seu divino manto
e nos guarde no céu os que perdemos...

Morreu a lenda. Sou como o cisne branco
no lago da saudade já não canto.
A morte é vida. Então, porque morremos?

Maria Helena Amaro
Foz de Arouce, 15/09/2012

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

A Lenda da Fiandeira


(Fotografia de António Sequeira)

Rosinha era filha daquele moleiro
daquele moinho à beira da estrada
Tinha na boca linda, um olhar feiticeiro
e um porte altivo de moura encantada
Era tão linda a Rosinha Modesta
tão simples e boa como a pobre giesta...

Tinha uns olhos negros, negros como o Céu
em noites de inverno que não têm fim
Tinha negras tranças, negras como o Céu
e a pele era branca, branca de jasmim
Quando ela sorria, sorria o luar
e os dentes eram jóias achadas no mar...

Mal o sol nascia no monte azulado
Rosinha era ave cantando no ninho
Sorria às flores, ao rio, ao prado
sentada a fiar à porta do moinho
E passava o dia sentada a fiar
ouvindo das aves o doce cantar

E desde a aurora até o sol por
Rosinha fiava com  vida e ardor
cantando à noite como o rouxinol
canções meritosas de sonho e amor
E Rosinha sonhava enquanto dobava
as estrigas de linho que ela fiava

O pai era um velho de olhar bondoso
um pobre moleiro que não maquiava
Para toda a gente era caridoso
Pobre lhe pedia e rico lhe dava
Vivia feliz com sua Rosinha
O anjo bendito que do Céu lhe vinha

Mas um dia na aldeia os sinos tocaram
Tocaram um toque, cheio de saudade
Morreu a Rosinha! Amores a mataram!
Da morte só Deus sabia a verdade...
Passado algum tempo o sino tangia
Era o pai da Rosa que também morria!

E no cemitério cheio de ciprestes
foram enterrar os dois lado a lado
Foram-se as estrigas, os cantos celestes
Ficou o moinho deserto e parado...
E nunca mais se viu Rosinha a fiar
sentada sozinha à porta do lar...

Maria Helena Amaro
13/10/1954

domingo, 5 de outubro de 2014

Lendas



(Ilustração de Maria Helena Amaro)


Há lendas que nunca sei contar
tão fugidia eu ando de carinho
Há imagens que quero recordar
e lembranças perdidas no caminho

Há dores que não sei suportar
longas insónias dum infindo sofrer
Há coisas belas que não consigo amar
e ilusões que não posso viver

Há ideias perdidas pelo ar
neste mundo de descrença sem par
de desespero e de futilidade

Há pensamentos que não posso ocultar
Há amarguras que não sei chorar
e há dentro de mim uma saudade...

Maria Helena Amaro
Esposende, 13/11/1953

sábado, 18 de janeiro de 2014

Lenda


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
(Ilustração de Maria Helena Amaro)
 

Os anjinhos do céu,
nesta noite,
não dormiram nada...
Andaram toda a noite,
a despejar ligeiros,
sobre a velha cidade,
os seus dejetos de alma lavada...

Inundaram com eles
os campos, os jardins,
as ruelas estreitas
e as longas estradas...

Quando eu era criança,
contavam-me esta lenda
(e eu acreditava)
Metia-me descalça
debaixo das chuvadas
e saltitava alegre nas pocinhas,
a rir, à gargalhada...

Hoje, não acredito.
Fechei o coração...
E grito: «Não, mais chuva não!
Estou alagada!»
Mas, Braga
é um sertão
não me diz nada!

Maria Helena Amaro
Braga, janeiro 2014 

sábado, 12 de janeiro de 2013

Lenda (2009a)




















               (Ilustração de Maria Helena Amaro)



Que cavalos são aqueles
que fazem sombra no mar?
São os «cavalos» de Ofir
são os penedos de Fão
suspensos no seu arfar
em castigo ou punição...

São penedos tão medonhos
tão difíceis de agarrar
escondidos nas marés
voltados para Esposende
Já não podem cavalgar
que o mar de sal bem os prende...
na lenda do rio Zende.

Que cavalos são aqueles
que fazem sombra no mar?

São lendas que ninguém conta
Mas que o farol sempre aponta
não vá alguém naufragar!


Maria Helena Amaro
Inédito, novembro de 2009.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Lenda (2009)

(Ilustração de Maria Helena Amaro)


Diz a lenda
que no dia em que nasceste
as bruxas varreram o terreiro
fizeram uma fogueira
e dançaram, à roda
a noite inteira
debaixo do luar...

O teu pai sorriu
a tua mãe chorou
e a tua avó
com olhos cor de breu
rezou uma oração:
"Deus lhe dê as águas do batismo
e a ponha no céu...»
A parteira
ergueu-te nos espaços
e em abraço de ternura e fé
gritou com alegria
«que linda, que linda que ela é!»

Diz a lenda
que cresceste menina entre meninas
e ficaste para sempre
suspensa no luar...
Beijou-te o mar
e o vento, nas ondas altaneiras,
chamou muitas sereias
que o teu berço quiseram embalar

Diz a lenda...
que há de dizer a lenda
que não saibas?
E que não acredites?

A lenda é sempre a lenda
mentira prometida...
Com palavras bonitas.
Mas uma conta
que todas as bruxas
que dançaram
à volta da fogueira já morreram
apenas uma
ficou dançando à roda
uma estranha moda.
Nos caminhos da vida,
em ritmo maldito.

Diz a lenda...
mas eu não acredito!

Maria Helena Amaro
Inédito, junho 2009

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Lenda (II)

(Fotografia de António Sequeira)
Conta a lenda que num País
de uma terra que e u não sei
toda a gente era feliz
mas, infeliz, era o Rei.

Encontrou uma Princesa
e viveu à sua beira
mas nem a sua beleza
o punha de outra maneira

Então o Mago da Corte
disse ao Rei: - Sua Alteza
faça uma fogueira forte
e mantenha-a sempre acesa.


Maria Helena Amaro
Inédito, julho, 1998
  

sexta-feira, 2 de março de 2012

Lenda


Ao Fernando Mota Soares

Era…
Um pálido guerreiro
De armadura branca
Lutando com a Noite
À luz do entardecer…

Era…
Algum monge-poeta
No silêncio da cela
Compondo tristes versos
Em horas de lazer…

……………………………………………………………………..

Era…
Algum judeu errante
Intitulado rei
De alvas cidadelas
Erguidas sobre o mar…
 
Era…
Um mendigo sem nome
Um alforge dourado
Que cantava às crianças
Histórias de encantar…

Maria Helena Amaro
In, «Maria Mãe», 1973