Periodicidade de publicação de poemas

Caros leitores:
Espero que desfrutem na visita a este espaço literário. Este sítio virtual chama-se “Maria Mãe” e tem como página principal os poemas de Maria Helena Amaro.
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domingo, 26 de julho de 2015

Dia dos Avós - Avós e netos


(Fotografia de António Sequeira)



Porta fechada. Persiana descida.
Silêncio e sombra na grande mansão.
Chama-se a isto serena solidão.
Sem luz e cor no acabar da vida.

À moradia o sol chega tão tarde
Mas vem cheio de risos e projetos.
Saltita alegre nos rostos dos meus netos.
Espanta em mim a mágoa e a saudade.

Abre-se a porta. Sobe-se a persiana.
É tão ameno aquilo que se ama:
- «Ó avó, avó, o que vamos comer?»

Enche-se a sala de risos e de gritos.
Quem tem netos, como eu, assim bonitos.
Não vive só… Não poderá morrer!


Inédito
Maria Helena Amaro

26/07/2015 

domingo, 2 de novembro de 2014

Avozinha


(Ilustração de Maria Helena Amaro)


Quando me ponho, avó, a meditar
na minha infância distante que passou
sinto minha alma baixinho soluçar
ao recordar os sonhos que sonhou...

Eras toda carinhosa, branquinha
suave, terna a segurar meus passos
recordo os teus carinhos avozinha
e o aconchego dos teus cansados braços...

Quando partiste nessa viagem infinda
levaste a ventura dos meus alegres dias
dos meus tempos distantes de criança

E eu sinto avó pairar ainda
nos risos loucos, nas minhas fantasias
a tua imagem a Luz da Rocha Esperança

Maria Helena Amaro
2/02/1954
(Dedicado à Avó Helena de Jesus)

domingo, 13 de julho de 2014

Andorinhas (Para a Avó Ana - 1941)


(Ilustração de Maria Helena Amaro) 

Eu era pequenina… Não chegava à varanda.
Sentava-me no chão a «brincar às casinhas…»
Sobre a minha cabeça voavam andorinhas.
Dizia a Avó Ana que vinham da Holanda.

No mês de março era a mesma brincadeira:
esvoaçavam aos pares, por todo o lado,
perto dos ninhos, no beiral do telhado
ou saltitantes por sobre a laranjeira.

Eu estendia as mãos, muito ligeira,
a tentar apanhar as andorinhas,
que passavam por mim em revoada…

Estavam mesmo, ali, à minha beira,
tão vivas, tão brilhantes, tão negrinhas…
- «Deixa-as em paz!» Gritava a avó zangada.

Maria Helena Amaro
Inédito (tema Dia dos Avós)
Braga, 26/06/2014  

quarta-feira, 28 de agosto de 2013




















(Ilustração de Maria Helena Amaro)

Pobre da «bó»
ali tão só
Faz rilhi-lhi... rólhó... lhó...
Olho-a de lado,
mete-me dó...
Vem uma ralha
outra petiga
e a pobre «bó»
a ninguém liga...
Fala dos seus
netos e tretos
coisas de Espanha
e mais tarecos...
E a pobre «bó»
mete-me nojo
mete-me dó...
Camisa é saia
saia é laró...
«Chica-se" toda
toda se suja
pobre da «bó»!

Não quer remédios
não quer pastilhas
quer o seu copo
frango de ervilhas
quer o seu copo
de bom verdesco
pobre da «bó»
tão pobre e só
causa-me asco...

Vem a família
vem ver a «bó»...
Riem-se dela
(cheira a cocó)
Vem ver a velha
pobre da «bó»...
As enfermeiras
falam-lhe alto
da bata e salto
bem altaneiras...
E a pobre «bó»
ri de mansinho
pede-lhes vinho
pobre da «bó»...

Vai à casinha
é um transtorno...
chichi no chão
e por onde passa
fralda e descalça
mete-me dó...

Pobre da «bó»!
pobre da «bó»!

Ó «bó»... Ó «bó»...
Vai a parar
vai a virar
o teu trenó
que ninguém pense
que ninguém ria
do teu penar...

Bebé de novo
voltas às fraldas
voltas ao riso
voltas às coisas
que vivem só...

Pobre da «bó»!
Pobre da «bó»!

Maria Helena Amaro
Maio, 1976
(Concurso Novos Poetas - Pedro Homem de Melo)

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Avô Sequeira (1931-2010)


(Fotografia de António Sequeira)

Meu Amor, nasceu a Beatriz,
réstia de sol ou raio de luar,
anjo do céu que à terra quis chegar
mensagem terna, sublime, feliz.


Nasceu, por fim, a tua querida neta,
que tanto ansiavas conhecer…
Pudesses tu no colo a receber,
cantar para ela a canção predileta.

Nesse Universo onde te deténs,
recebe, Amor, os nossos parabéns,
pois mais um anjo por ti irá rezar.


Hei de, um dia, contar-lhe a tua vida,
falar do Amor que tinhas sem medida,
para que ela também te possa amar…


Maria Helena Amaro
Inédito, Braga, 12/05/2010

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Manuel e Piedade



















(Ilustração de Maria Helena Amaro)




Manuel (1911-1982) e Piedade (1910-1990)

Minha mãe era a Primavera irreverente,
buliçosa, promissora, esfusiante,
tinha nos olhos um clarão ardente
e na boca um riso cativante.

Meu pai era um Outono sossegado,
o doce por do sol ao fim do dia…
Um sorriso sereno, demorado,
em busca de paz e de harmonia.

Minha mãe era a palavra e dizer:
-“Isto sim…isto não… O que há-de ser?
Porque sim… porque não… e porque é…»


E o meu pai tão calmo e paciente:
«Deixa lá isso… Isso não é urgente…
Eu venho já… vou tomar um café.»

Inédito
Braga, Dia dos Avós, 26/07/2009
Maria Helena Amaro

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Avó Ana (1874-1946)


(Fotografia de António Sequeira) 
Avó Ana sentava-se à lareira,
a atear com jeito o seu brasido,
soltava um ai, um suspiro, um gemido,
como se fosse triste carpideira.

Feliz, não era, não, a triste avó.
Viúva cedo no florir da vida,
criara um filho com dor e muita lida,
a cultivar as terras sempre só.

Contava-nos histórias de pasmar:
fantasmas, lobishomens, feiticeiras,
faunos e bruxas a dançar nas fogueiras,
modas do demo, debaixo do luar…

Nossas maleitas sabia bem curar:
chás e tisanas e defumadoiros,
rezas, evocações, a murmurar
como se fosse a fada dos tesoiros!

Ficou-me na lembrança essa senhora,
que falava e dizia a toda a hora,
frases curtas, ordenadas, secas.

Avó Ana dos meus tempos de criança,
que me ensinava, em horas de bonança,
a construir à mão lindas bonecas!

Maria Helena Amaro
Inédito – 26/07/2009

domingo, 28 de outubro de 2012

Dia dos Avós (Avô Correia)















         
(Ilustração de Maria Helena Amaro)

Avô Correia - 1878-1918


Na casa da Avó Ana, no salão,
havia um retrato emoldurado,
do Avô Correia, de olhar enamorado,
porte garboso, bigode rufião.

Cantador de fados, de cantigas,
poeta, trovador, republicano,
em Lisboa perdido todo o ano,
enfeitiçava de amor as raparigas.

Viva a Maçonaria! – ele gritava -
na vontade de criar a nova lei,
contra Deus, contra os ricos, contra o Rei,
a favor da liberdade que ansiava.

De nada lhe valeu tanta heresia,
tanto furor, tanto caminho torto.
A pneumónica fez dele um homem morto,
na idade do vigor e da alegria.


Avó Ana foi a sua companheira,
que por ele sofreu a vida inteira,
numa história de dor, forte e serena.


Em criança, eu tinha tantos medos
ao olhar o quadro… Que segredos?!
Não conheci o Avô… e sinto pena.



Inédito – Maria Helena Amaro
Foz de Arouce, Lousã, 2011.

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Avô Amaro




















(Ilustração de Maria Helena Amaro)


Avô Amaro
(1877-1955)

Sentava-se o avô no cantinho da sala,
a sós, silencioso, a meditar,
as mãos esguias pousadas na bengala,
o rosto sério e perdido o olhar…

Que pensava o avô, que sonhava afinal,
naqueles fins de tarde de soturno novembro?
Eu ia ter com ele e lia-lhe o jornal,
e ele me escutava feliz, de riso terno…

De quando em vez uma gota ligeira
Deslizava serena no seu gosto sardento:
«Que saudades que tenho da minha companheira!
Que saudades sem fim, eu tenho de outro tempo!»

Eu ouvia o avô e o avô sorria
sentado calmamente no cantinho da sala,
escutava o que eu lia e tudo comentava.

O avô foi embora numa tarde tão fria;
Deixou a recordá-lo a velhinha bengala
a cadeira vazia onde ele se sentava.
Maria Helena Amaro
Dia dos Avós outubro, 2008
Publicado no jornal “Diário do Minho” em julho de 2009



Nota: O Dia dos Avós festeja-se no dia 26 de julho

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Dia dos Avós I


(Fotografia de António Sequeira)

Avó Helena
(1877-1944)

A Avó Helena era bela como o Sol.
Olhos gaiatos… pele aveludada
Blusa aos folhos e saia rodada…
Sorriso terno e voz de rouxinol.

Ainda a vejo na varanda recostada
A descascar maças «D. Joaquina».
Lenço nos ombros… figura pequenina…
Sempre ansiosa com a nossa chegada.

E ao chegar eram risos e abraços,
o atar nós e o desatar laços
que Esposende chamava-se lonjura…

Avó Helena fora mãe de nove filhos,
e os netos eram logo os seus atilhos
que a prendiam à Vida com ternura.




Maria Helena Amaro
Dia dos Avós outubro, 2008
Publicado no jornal “Diário do Minho” em julho de 2009


Nota: O Dia dos Avós festeja-se no dia 26 de julho