Periodicidade de publicação de poemas

Caros leitores:
Espero que desfrutem na visita a este espaço literário. Este sítio virtual chama-se “Maria Mãe” e tem como página principal os poemas de Maria Helena Amaro.
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sexta-feira, 25 de agosto de 2017

Suposição


(Ilustração de Maria Helena Amaro)

Eu sei que hei-de... hei-de viver no mar,
quando for anjo, sereia ou uma estrela,
hei-de morar numa caravela
e poderei com ela, navegar...

Eu sei que hei-de... hei-de morar no mar
e o meu teto será o firmamento,
do lado sul, há-de vir o vento,
do lado norte um raio de luar...

Os meus colares serão feitos de sargaços
e as pulseiras de algas marinhas
e os vestidos de espumas rendilhadas...

Hei-de viver assim, sem embaraços,
a pintar, a versejar as coisas minhas,
cantando hinos a Deus nas madrugadas.

Maria Helena Amaro
Setembro 2014 

sexta-feira, 2 de junho de 2017

Levem-me a ver o mar



(Ilustração de Maria Helena Amaro)

Levem-me a ver o mar…
Antes de eu morrer,
levem-me a ver o mar,
das ondas ondulantes,
das naus e caravelas,
dos bravos navegantes,
a dominar procelas…
Levem-me a ver o mar,
pejado de traineiras,
de gritos de gaivotas,
de canto de sereias,
das marés espumosas,
batendo nos rochedos,
dos naufrágios medonhos
de lendas e de medos,
de desfazer de sonhos,
de intrigas e enredos…
Levem-me a ver o mar
de areias escaldantes
onde possa lançar
meus choros lancinantes…




Maria Helena Amaro
Fevereiro, 2014





quarta-feira, 19 de abril de 2017

Lenda do Mar


(Ilustração de Maria Helena Amaro)

Encontrei-me numa praia abandonada,
a ver o mar de águas ondulantes,
sem anseios, desejos, dores, amantes,
à espera de uma certa madrugada.

Depois da noite surgia a madrugada
e o sol quente em raios rutilantes,
mas o mar cantava como dantes,
e, eu cantava com ele na balada.

Dias e noites nesta canção bailada,
neste surgir de rósea madrugada,
neste escutar o mar forte e andante.

Nesta história de lenda inacabada,
neste pedir ao céu um tudo, um nada,
fiz-me poeta, tornei-me caminhante.

Maria Helena Amaro
26/02/2014 

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Dois mundos


(Ilustração de Maria Helena Amaro)

Nasci numa territa à beira-mar,
mas sou filha de serranos beirões.
Tenho na gaveta aquelas certidões
que atestam bem, o que eu possa narrar.

Trago na alma noites de lua cheia,
chusmas de estrelas penduradas nos céus.
Preces e rezas nos altares de Deus.
Cheiros e risos de uma pequena aldeia.

Se me lembro do mar já sou sereia.
Já não me afogo nas ondas prateadas.
Já sei contar histórias de naufrágios.

Se me lembro de serra sou ceifeira.
Já não me perco em velhinhas estradas.
Já sei contar as lendas, os adágios.

Maria Helena Amaro
Janeiro, 2014

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Cantilena


(Fotografia de António Sequeira)

Na orla do mar
na orla do rio
estendi a alma
cheiinha de frio...

Na orla do rio
na orla do mar
estendi a alma
tão perto do céu
chamei o teu nome
ninguém respondeu...

Chamei as gaivotas
na orla do mar
chamaram por ti
- tão belo chamar!
Na orla do rio
na orla do mar
ouvi o teu nome
um anjo a chamar
sonhei acordada
dormi a cantar
na orla do rio
na orla do mar!

Maria Helena Amaro
11/novembro/2010

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Mar


(Ilustração de Maria Helena Amaro)

É o mar o meu sustento
minha praia, a solidão,
maré alta o meu tormento,
maré baixa, o meu caixão...

É o barco asa de vento,
meu amigo, meu irmão,
é a rede onde me sento,
meu banco, meu ganha pão.

É o farol o meu guia,
que me leva pela mão,
quer de noite, quer de dia,
é o leme, o meu timão.

Tenho remos, tenho vela....
Lá vou eu a navegar...
Numa noite de procela,
talvez eu morra no mar... 

Maria Helena Amaro
Fevereiro, 2011

domingo, 27 de dezembro de 2015

Barco


(Ilustração de Maria Helena Amaro)

Coração barco encalhado,
em praias de nostalgia,
dia e noite alpendurado
em marés de rebeldia.

Coração barco ancorado
da velha areia não sai...
Vai ficar desmantelado...
onda vem... e onda vai...

Coração barco apressado
junto à negra penedia...
do farol enfeitiçado,
à mercê da ventania...

Há de Deus trazer-lhe o leme
numa noite de luar...
Coração que tanto geme
será barco a navegar...

Maria Helena Amaro
Esposende
Janeiro/2014

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Mar


(Quadro a óleo de Maria Helena Amaro)

Olho o mar; o mar é meu,
perto do mar eu nasci...
numa terra,  aqui, aqui...
sob um pedaço de céu...

A terra que Deus me deu,
deu-me um amor que perdi,
amor que nasceu aqui,
perto do mar que é só meu

A areia sabe de cor
essa historinha de amor,
que o mar quis festejar...!

No tempo que já morreu
tive o amor todo meu,
amor que me deu o mar...

Maria Helena Amaro
Esposende
4 de agosto de 2010

sábado, 10 de janeiro de 2015

O Pôr do Sol no Mar


(Ilustração de Maria Helena Amaro)

Um dia fui ao pôr do sol ao mar
chorar as penas do meu peito dorido...
Eu quis contá-las, de manso, sem ruído
mas ele esquivo não me quis escutar...
Então sentei-me na areia macia
olhando o mar, azul, esverdeado
e chorei... e sofri...
Ao mar então pedi
um pouco de alegria!
Ele alegre, estouvado,
quis falar-me de amor
num tom quase encantado...
As águas verdes, claras, cor do prado
em mil rendas se quiseram tornar
para tecer um vestido de noivado
porque Sua Alteza, o Rei, ia casar!
Não aceitei, não quis
porque era amor sem lei
Não faças ninguém feliz...
Então
ele humilhado estendido no chão
ventou, sorriu e disse,
com tristeza e meiguice:
"Quem me fizera homem!"
E ao mar respondi:
"Eu gosto assim de ti,
azul, verde, cinzento
tecido de brancura
na paz ou no tormento 
na luz na noite escura!"
E o mar poeta, sonhador
cantou-me um hino todo feito de Amor!
A noite tinha vindo luarenta
era a praia uma estrada cinzenta
debaixo de cristais...
Então eu disse adeus ao mar
e de novo senti no seu cantar
todas as minhas penas...
E ele meigo, um ciciar sem nome
cantou só para mim
como quem dá amor
em troca de renúncia:
"Hei de trazer nas minhas falsas ondas
um banho alegre de amorosas pombas
e um marujo alegre, sedutor...
E tu virás a visitar-me um dia
e em mim todo encontrarás amor.
Amor humano, ardente, feiticeiro
puro e transparente
tal como tu sonhaste
em tempos de menina...
E nele tu hás de encontrar a paz
e nos olhos do marujo mensageiro
verdes como o meu seio
tu hás de espelhar-te
como a alma se espelha
no meu manto de rendas
em noites de luar..."
Adeus, ó mar!


Maria Helena Amaro
16/03/1955

sábado, 27 de setembro de 2014

Eu e o mar


(Ilustração de Maria Helena Amaro)

Nasci numa territa ao pé do mar
e foi o mar que embalou meu berço
por isso canto o mar em prosa e verso
e até morrer sempre o hei-de cantar.

É a luz das ondas altaneiras
Que me traz o som, a cor, os temas,
Para compor, em paz, os meus poemas
E ir com eles no sulco das traineiras.

Vou no mar… no mar desapareço.
Não esperem que faça o meu regresso,
Pois é no mar que eu quero morar…

Quando Deus construiu o universo
Fez as estrelas e o vento travesso
e oceanos de luz a cintilar.


Maria Helena Amaro
Inédito
Esposende, julho 2014

domingo, 27 de julho de 2014

Ondas e bruma


(Ilustração de Maria Helena Amaro)


Enquanto as ondas lentamente
beijam a areia envolta pela bruma
eu sozinha olho intensamente
a meus pés essas rendas de espuma

E as ondas vem, vão, seguidamente
num deslizar cheio de mansidão
vai-se o sol mergulhando calmamente
envolto num rubro clarão

Então comparo a minha vida ao mar
a triste bruma à minha saudade
e uma dessas ondas ao sonhar...

O sol é meu peito já dorido
o clarão é a minha ansiedade
e a espuma é o tempo perdido!...


Maria Helena Amaro
Braga, 4/02/1953 

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Aviso

(Ilustração de Maria Helena Amaro)
Saíste no mar
a navegar
no teu batel
no cimo das ondas alterosas...

Não vás ao mar
não vás
que as águas são de fel
e as marés
com ondas a cantar
são tão medonhas
traiçoeiras
maldosas...

Não vás ao mar
não vás
senta-te aqui
ao pé de mim na praia...
Deixa que venha o Sol
que enxugue a minha saia
pois o farol
na noite/tempestade
já não é luz
já não serve de guia
e as sereias
perdidas nos sargaços
só nos cantam canções
de morte e de cansaços
de vento e de saudade...

Não vás ao mar
não vás...
Estende as tuas redes nos rochedos
aceita sonhos desencantos
e medos
e espera a bonança
que te dará esperança.

Não vás ao mar
que essa viagem pode não ter fim
perde-se toda nas nuvens dos Céus
em brulhada em cetim
ao encontro de Deus.

Maria Helena Amaro
Inédito, novembro de 2009.

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Maruja

















(Ilustração de Maria Helena Amaro)


Lavei no mar o meu batel de sonho,
com remos de oiro e velas de luar,
mas o vento da vida foi medonho
e tantas vezes eu o vi naufragar.

Das sereias ouvi o seu cantar
queimei o rosto à luz seca do sol
nas noites quentes deixei-me mergulhar
nas ondas frias à sombra do farol

Já não sou mais a que amava o mar
a que lançava nas ondas alterosas
o seu batel de velas de luar

Morreram as sereias de encantar
já não me enjeito com algas cetinosas
Pego a maré e deixo-me enrolar.


Maria Helena Amaro
Inédito, fevereiro de 2009


domingo, 1 de julho de 2012

Mar

(Fotografia de António Sequeira)


Gosto do mar... Oh, se gosto!
Sempre achei o mar perfeito.
Enche de sal o meu rosto,
sem pudor e sem respeito.


Oh mar da minha verdade!
Oh mar da minha afeição!
Oh mar da minha saudade!
Oh mar do meu coração!

Quando te ouço cantar
ou gemer na baixa-mar
à procura de sereia...

Quero contigo embarcar
no mar alto naufragar
no casco de uma traineira.

ou... então...

ir prender-me mar adentro,
de velas, soltas ao vento;
no rasto de um batelão! ...


Maria Helena Amaro
Esposende, agosto 2010


terça-feira, 19 de junho de 2012

Maré

(Fotografia de António Sequeira)

Meu Amor, andou perdido,
por outros mares, marés
Teve o fruto proibido
viveu-o bem escondido
lá no fundo das galés...
 
Encontrei o meu amor
num dia de tempestade
foi espanto, maldição
que partiu meu coração
sem pudor e sem piedade...
Veio de novo a meus braços
todo de negro vestido
mas a minha confiança
feita de luz e de esperança
é barco no mar rendido

Sem remos, rotas e vela
está a nossa caravela
no areal encalhada

Procuro a onda do mar
mas a onda que chegar
é sempre, sempre salgada.

Não somos mais quem já fomos
e se formos, não sabemos,
nunca mais rota acertada...

Procuro a onda do mar
mas se essa onda chegar
eu sei que será salgada.


Maria Helena Amaro
Inédito, maio, 2004 

domingo, 4 de dezembro de 2011

Maré cheia


Remos partidos
Velas desfeitas
Maré cheia infestada de espuma…
Lá vou na tempestade
E não tenho rota que me leve
A porto novo onde possa ancorar…

Dá-me a tua mão
Leva-me tu com olhos de luar
A porto novo
Onde haja Sol e luz até cegar…

Remos partidos
Velas desfeitas
Não há farol no oceano negro…
Sinto-me partir…
Quero ficar!
Maria Helena Amaro
In «Maria Mãe», 1973