Periodicidade de publicação de poemas

Caros leitores:
Espero que desfrutem na visita a este espaço literário. Este sítio virtual chama-se “Maria Mãe” e tem como página principal os poemas de Maria Helena Amaro.
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sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Canção do cego


(Fotografia de António Sequeira)

Sou o cantor cego à beira do caminho,
faço cantigas de fazer chorar...
Mas, só tu;
Só tu, ó meu amigo,
poderás ouvir o meu cantar...
Deixa que te acompanhe,
deixa que te conforte,
de mão na mão, até à encruzilhada
onde se esconde a dor,
para te ver passar.
Não queiras nunca caminhar sozinho,
pois, no dia em que chegar a dor
cantarei para ti,
somente para ti,
uma canção para que não tenhas medo.
A dor
é uma palavra verdadeira
que se aprende na vida,
a vida inteira,
em segredo.

Maria Helena Amaro
Maio, 2010

sábado, 12 de julho de 2014

Canção para Sophia (Homenagem a Sophia de Mello Breyner Andresen)




Canção para Sophia
Tal como Sophia,
perco-me nos meus poemas,
e quando eu morrer,
hei de voltar a ser,
só para ver o mar…

Mas não serei Sophia
e não poderei ser…
Pois Sophia há só uma,
anda ao cimo do sonho,
enfeitada de espuma…

Sophia não serei
e quem me adivinha
não faz de mim rainha,
pois versejar não sei.

Peço à Sophia,
quando a leio, e digo,
que desça do sublime
e venha alguma noite,
suspensa sobre o mar,
a versejar comigo.









Maria Helena Amaro
Inédito
Braga, 28/06/ 2014

domingo, 22 de setembro de 2013

Vindimas



(Fotografia de António Sequeira)



Na vinha
ao romper da aurora
Corta, corta, corta a-i-ô
Vindimam por aí fora
Corta, corta, corta ai ô

E na vinha e no lagar
ouve-se o mesmo cantar
Corta, corta, corta ai ô

Levando cestos pesados
upa, upa, upa ai -ô
Os homens lá vão cansados
upa, upa, upa ai ô

E na vinha e no lagar
ouve-se o mesmo cantar
upa, upa, upa ai-ô

No lagar atarefados
Pisa, pisa, pisa ai-ô
de calças arregaçadas
pisa, pisa pisa ai-ô

E na vinha e no lagar
ouve-se o mesmo cantar
pisa, pisa, pisa ai-ô


Maria Helena Amaro
1983
Escola de S. Lázaro, Braga
Adaptação de uma música popular

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Cantiga (para a Maria)


(Ilustração de Maria Helena Amaro)


Coração de vidro trazes
pendurado no teu peito...
Vê lá o mal que lhe fazes
balouçando, assim, sem jeito...

Coração de vidro fino
num constante baloiçar...
Ainda tão pequenino
e já sujeito a quebrar!

Não gosto de ver brincar
com os corações por gosto...
Se o vais estilhaçar
imagina que desgosto!

Também trouxe um coração
pendurado no meu peito...
Agora, vejo-o no chão
em mil pedaços desfeito...

Bem gostava de o ter
de novo no meu pescoço...
Mas quem mo partiu não quer...
E eu sozinho não posso!

Coração, nunca tocado,
deve andar sempre escondido.
Não o tragas pendurado
no decote do vestido.

Quis mostrar, o meu à vida
e a vida mostrou-me a dor...
Alma de negro vestida,
num coração sem Amor!

Maria Helena Amaro
setembro, 1975

sábado, 19 de maio de 2012

Cantiga

(Fotografia de António Sequeira)


Entrou-te em casa a desgraça
e ficou na tua rua
Agora quando ela passa
Tão vestidinha de graça
Se choras, a culpa é tua.

Entrou-te em casa a desgraça
e pôs-se logo à janela
Agora quando ela passa
sorridente e tagarela
és tu que passas com ela.

Entrou-te em casa a desgraça
e ficou na tua terra
agora quando tu passas
e com ela não engraças
é contigo que ela berra.

Maria Helena Amaro
Inédito, setembro, 2005

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Canção


Nasceu a primavera
E as meninas vestem-se de branco
Doces meninas de olhos transparentes
Onde as estrelas vogam
Em noites de luar…
Entram-me todas no portal da Escola
E eu estendo ao Sol
A minha alma a corar…
……………………………………………….          
Vinde meninas
Vinde trazer-me uma guitarra verde
Para eu tanger nas horas imprecisas
Em que sou e não sou
E em que sonho ser
A estrela maior
Dum tão pequeno mundo!
Vinde trazer-me uma guitarra verde
A mim que já não brinco nas pocinhas da rua
E ensinai-me
Ensinai-me a cantar
A canção branca da Menina da Lua…
Quando eu adormecer morta e cansada
Na secretária negra
E os meus olhos deixarem de sorrir
Vinde meninas de olhos transparentes
Vinde e trazei-me uma guitarra verde
E uma rota de caminhos sem fim
Aonde possa ir…

Dessa alegria que trazeis vestida
Eu também fui senhora
E tive trança loira e linda voz!
Agora…
Doces meninas de olhos transparentes
Tenho-vos só a vós!
…………………………………………………
Nasceu a Primavera
E as meninas vestem-se de branco
Doces meninas de olhos transparentes…
Nunca mais serei só.
Tenho a guitarra verde
A enfeitar a secretária negra
Cobertinha de pó…


Maria Helena Amaro
In, «Maria Mãe», 1973

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Canção da Tarde

À Celeste Germano


Voltei costas ao Sonho
E fui de olhos marejados
Ao encontro da Dor...
Agora
Sabe-me a vida à Primavera em flor
E os meus braços mortos
Tornam-se asas...
Pergunto ao Céu
Onde lance meus voos de Infinito
Pelo caminho que pedi às estrelas...
E os meus braços
Braços partidos de destroçarem grades
Curvam-se todos
Como hastezinhas de lilases murchas...
Curvam-se todos esses braços quebrados,
E neles o meu rosto
É anjo penitente
A poemar os repousos negados
A esquecer estradas percorridas
A desvendar os gestos de renúncias
Que ainda não foram esboçados!

Maria Helena Amaro
In, «Maria Mãe», 1973 

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Canção Inútil



Lá vou de alma descalça
Por essas ruas sós
A contar horas mortas...
Sou o mendigo do violino branco
De arco torcido
De cordas quebradas...
Compus uma canção
Feita de céus e lagos transparentes...
- Quem vai ouvir esta canção de noite?

Lá vou de alma descalça
Por ruas sem esquinas
Por praças sem pregões...
Canto cantigas de fazer sonhar...
Sou o mendigo do violino branco
De arco torcido
De cordas quebradas...

Trancam-se portas; fecham-se janelas...
E a minha canção
Feita de céus e lagos transparentes
Transformou-se na noite
Numa canção inútil !...

Maria Helena Amaro
In, «Maria Mãe», 1973