Periodicidade de publicação de poemas

Caros leitores:
Espero que desfrutem na visita a este espaço literário. Este sítio virtual chama-se “Maria Mãe” e tem como página principal os poemas de Maria Helena Amaro.

quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

Invasão


(Ilustração de Maria Helena Amaro)

Um punhado de areia na minha mão,
um nada de espuma, de lama, nada mais,
um grito de mulher ecoante no cais,
uma gaivota cinza a saltitar no chão.

Um barco a baloiçar no mar em turbilhão
O rio a esvair-se em suspiro e ais
que o vento chama a chuva, a dor, os vendavais,
que o vento é tempestade raios,  furacão.

Cenário como este, eu não verei jamais,
o mar tornado louco, em ondas colossais,
destrói o casario, a duna, o paredão.

O barco se desfaz em danças infernais
Os voos das gaivotas são gritos de chacais
O mar é uma bomba, a terra é um balão.

Maria Helena Amaro
Julho, 2014.

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Nossa Senhora


(Ilustração de Maria Helena Amaro)

Maria, Mãe de Deus, Nossa Senhora,
regaço terno de rosas perfumadas,
guia seguro em escuras estradas,
farol, estrela, aqui, a toda a hora.

Maria Mãe, Mãe de Deus, Nossa Senhora
de Nazaré e de Jerusalém,
minha irmã, minha amiga, minha mãe,
dos pobres e mendigos salvadora.

Sou pobre, sou mendiga, pecadora,
vos suplico, ó Mãe, aqui, agora,
um pouco de ternura, proteção.

Rainha e Mãe dos homens protetora
Vós sois minha Mãe, minha Senhora
Guardai-me, ó Mãe, no vosso coração.

Maria Helena Amaro
23/06/2014 

domingo, 10 de dezembro de 2017

Lembranças


(Ilustração de Maria Helena Amaro)

Quero guardar no tempo o sonho que finou
O caminho de luz por onde caminhei
O braçado de rosas que a vida me deu
Os momentos ditosos que na alma gravei.

Do meu velho baú escondido no peito,
eu vou tirando lembranças lés a lés.
São as belas lembranças de um amor perfeito,
que desdobro no tempo e me caem aos pés.

Não as quero caídas, não as quero pisadas,
quero mantê-las no baú, bem guardadas,
longe de tempestades, longe do vento norte.

Ajeito-as nas mãos de lágrimas molhadas
quero tê-las de perto nas noites estreladas
para que possa ver-te... no céu, além da morte.

Maria Helena Anaro
14/06/2014

sábado, 9 de dezembro de 2017

A meu pai


(Fotografia de António Sequeira)

Meu pai, meu livro de lembranças,
que escrevi ao longo da minha vida.
É para mim o obra mais sentida,
fala de amor, de paz e de crianças.

Meu pai, meu livro de poemas,
de gravuras de sonho e de ternura,
sem cruezas, sem rios de amargura.
Um molho enorme de belas açucenas.

Meu pai, minha serenata, de cigarra,
de uma cantiga tangida de guitarra,
companheira de sossego e de calma.

Meu pai sereno, vestido de humildade,
tão sereno em leis, em lealdade,
era o meu cais no mar da minha alma!

Maria Helena Amaro
Junho, 2014 

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Alma


(Fotografia de António Sequeira)

Alma cigana... Minha alma é cigana,
acorrentada sem lei e sem direito,
algemada na cela do meu peito,
suspira, grita, pragueja, reclama.

Ninguém quer, ninguém anseia, ninguém ama,
vai pela vida em marcha retardada,
livre e suspensa como água da levada,
em busca do sol que lhe dá chama.

Quem a vir passar não a detenha,
deixe correr quem a brisa desdenha,
deixem-na rude na sua caminhada.

Alma cigana não tem regra, nem senha,
leva na alma um braseiro de lenha,
incandescente como a luz da madrugada.

Maria Helena Amaro
Maio, 2014

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

Ombro amigo


(Fotografia de António Sequeira)

Ombro amigo... o teu ombro já foi...
Ombro de irmão real e conhecido.
Ombro de amigo que se encontra perdido
numa distância que endoidece e dói...

Ombro perdido por estranhas estradas.
Estradas longas que eu não percorri;
nessas lonjuras eu perdi-me de ti.
Lonjuras feitas de horas magoadas.

Quem separou com dor as almas juntas?
Perguntas... só perguntas... só perguntas...
Ninguém responde em nome da razão.

Porquê? Porquê? Perguntas sem respostas.
Cerram-se janelas e batem portas...
Silêncio rude... amarga solidão!

Maria Helena Amaro
10/06/2014


terça-feira, 28 de novembro de 2017

Adeus


(Fotografia de António Sequeira)

Foge-me a vida
por entre os dedos
como me fugia
a areia fina
da praia de Esposende...

Foge-me a vida
por entre os dedos
como me fugia
a água doce
do rio de Foz de Arouce...

Foge-me a vida
em louca velocidade
como me fugiam
as árvores e as casas
no comboio da linha do norte
quando me levava
ansiosa e alegre
até à velha estação da Lousã...

Eu era toda asas!
Foge-me a vida
por entre as horas de saudade
como me fugia
a estrada cinzenta luminosa
quando o meu pai
me levava de mota
aos exames liceais
a Viana de Castelo...

Foge-me a vida
e eu lá vou com ela
em fuga desabrida...
Mas não vou só...
É como se a terra de qualquer cemitério
estivesse ansiosa de receber meu corpo...

Levo comigo tudo o que sou e sei.
O que vivi e errei
O que quis e sonhei...
Deixo para os outros
o melhor lugar deste mundo
que nada me dará, apenas pó.
E a lembrança certa
de que vivi no Amor a coisa certa
e no trabalho e nos sonhos meus
a presença de um Deus...
De mais não fui capaz...
Aonde irei? Não sei... Adeus!
Só quero a paz!

Maria Helena Amaro
Junho, 2014.


segunda-feira, 27 de novembro de 2017

13 de maio


(Fotografia de António Sequeira)

Revejo Fátima
e lembro-me de ti
daquele dia alegre e luminoso
em que vestida
de rendas de luar
contigo celebrei
junto ao altar
o compromisso sério
de amar-te
a vida inteira...
Sob o olhar bondoso
da Senhora
e tanto lhe pedi
que ajudasse a fundar
o nosso lar...

Revejo Fátima
e lembro-me de ti...
De tantas, tantas vezes
em que fomos implorar
ajuda para a mágoa
para a doença e mal
que a vida nos dava...

Revejo Fátima
e lembro-me de ti...
Do nosso filho suspenso
dos teus braços
e do mais crescidito
a ensaiar os passos na extensa avenida...
Eu, tu e a vida...

Revejo Fátima
e lembro-me de ti...
Nada ficou da vida que escolhemos...
Ficou Nossa Senhora
no teu coração desesperado
na partida forçada...
Ficou Nossa Senhora
aqui comigo
para recordar
de alma amargurada
o que não voltará...

Maria Helena Amaro
13 de maio, 2014

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

1º de Maio


(Fotografia de António Sequeira)

Pude encontrar Jesus no meu caminho
Vinha velho, dorido, esfarrapado
Nos ombros trazia um grande fardo
e olhava o mundo, sem fé, em desalinho.

Falei então: «Jesus estou contigo
Conta-me tudo o que te atormenta
que a minha alma também anda sedenta
de certo apoio e da voz de um amigo».

Disse-me então: «Não posso acreditar
que a mensagem de paz que vos deixei
junto da cruz no alto do calvário

seja uma mensagem que se possa apagar
neste universo sem amor e sem lei,
rude, agressivo, insensato e usuário».

Maria Helena Amaro
Maio, 2014


sábado, 18 de novembro de 2017

Requiem


(Fotografia de António Sequeira)

Repousas no jazigo de teus pais
junto dos teus avós que tanto amaste
Nome Sequeira é quase um baluarte
entre as famílias destes meios rurais.

Venho trazer-te as flores mais singelas
Cravos e rosas, suspiros e saudades
Flores da alma e corpo, metades,
que por inteiro já ficaste com elas.

Olho o jazigo. Fui tua companheira
Amei-te loucamente a vida inteira
com toda a força de que fui capaz.

Quando eu morrer na hora derradeira
deixa-me ficar à tua beira
para rezar! Amor descansa em Paz.

Maria Helena Amaro
Março, 2014.

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Despedida (Curso 1982-1986)


(Fotografia de António Sequeira)

Descobrindo Portugal
estudámos Meio-Físico Social...

Era uma vez...
Foi assim que aprendemos Português.

Com teoria e prática
nós aprendemos Matemática.

Castelos, Museus, feitos de glória
nós conseguimos perceber a nossa História.

Com fogos, danças e Expressão Plástica...
nós misturamos aulas de Ginástica.

Cantando bem e mal
fizemos aulas de Educação Musical...

Visitas, experiências, teatro, habilidades,
nós inventámos actividades!

Já somos «uns doutores»!
Em sonho atravessámos a 
terra, o céu, os mares...
Carregamos às costas todos estes valores
e vamos invadir a Escola André Soares!

Ser gente...
Ser vivo...
Ser crente...
Ser igual...
Nós discutimos:
- Aulas de moral!

Maria Helena Amaro
Junho, 1986
Dedicado aos alunos do Curso 1982-1986 (Escola de S. Lázaro)

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Mãe


(Fotografia de António Sequeira)

Mãe
palavra pequenina
que aprendi a dizer
a ler
a escrever
ainda era menina...
Ficou comigo
cantada ou soletrada
em poemas de amor...
Mãe
mulher - amar
mulher - bem - querer
mulher - fazer
mulher - sofrer...
Mulher, sempre mulher
a toda a hora
Mãe violada
maltratada
espoliada
traída
mal amada
incompreendida
espiolhada
espancada
violentada
amada
idolatrada
bendita
abençoada
louvada
distinguida
Será sempre
mulher
mulher e mãe
E será sempre Mãe
Mãe
somente Mãe
nunca será mais nada!

Maria Helena Amaro
Maio, 2014


quarta-feira, 18 de outubro de 2017


(Fotografia de António Sequeira)

Não irei. Não vou nesse caminho,
dos que renegam o nome de Jesus.
Andam ceguinhos à procura de luz,
o corpo em fogo, a alma em desalinho...

Não vou com eles. Não consigo ir...
Eu me recuso a caminhar em vão.
Levo certezas na palma da mão...
É a cruz de Cristo que eu quero seguir

Venha comigo quem quiser cantar.
Quem acredita numa vida melhor
Quem é senhor de esperança e bondade

Não irei só, porque irei a rezar.
Fé e Esperança me levam com amor
Encontro rios de luz e de verdade.

Maria Helena Amaro
Maio, 2014

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Parabéns


(Fotografia de António Sequeira)


Desfolhei um malmequer
numa manhã, muito cedo
Desfolhei... sem o saber,
nasceu o meu filho Pedro.

Surpresa muito bendita,
filho de um amor seguro,
tive uma oferta bendita,
um medalhão d'ouro puro.

Já não tenho quem mo deu,
já não sinto a sua mão,
mas tenho um filho que é meu
para trazer no coração.

Uma frase me consola,
do papá, bem divertida,
tu foste o tal totobola,
que saiu na nossa vida.

Por tudo o que és e tens,
aqui ficam os parabéns!

Maria Helena Amaro
Abril, 2014

domingo, 15 de outubro de 2017

Caminhadas


(Óleo sobre tela de Maria Helena Amaro)

Faço caminhadas em busca do passado
nas estradas sinuosas de Esposende.
Vou em busca do tempo enamorado
em que a saudade me ilude e prende.

Avenida da Góios... Monte de S. Lourenço
A roupa branca a secar na ribeira
Mulheres da vila: saia, avental e lenço
O cheiro a maresia... o ronco da traineira...

Rapazes a correr de rosto tão sardento
Gritam gaivotas a enfrentar o vento
A velha ponte de Fão esburacada...

O nevoeiro desce denso e lento
Vou noutras datas ao encontro do tempo
Regresso ao d'hoje... Fico desapontada. 

Maria Helena Amaro
Março, 2014.

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Onde está Deus?


(Óleo sobre tela de Maria Helena Amaro) 

Há palavras estranhas, esquisitas,
que o povo pronuncia e domina. 
Chama-lhes azar, sorte ou má sina,
praga, degredo ou muito desditas.

O fado é sorte, é tristeza maldita
Nasce connosco e vem desde menina.
Doenças, males que ninguém atina.
Existe a fé e ninguém acredita.

Horóscopos, profecias, previsões,
rezas e mitos, alucinações,
andam no mundo debaixo destes céus...

Estranhas seitas, tantas religiões,
descem à toa sobre as multidões.
Reinam na terra os laicos, os ateus.

Maria Helena Amaro
Março, 2014 

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Primavera (2014)


(Óleo sobre tela de Maria Helena Amaro)

Chegou a primavera. Vem em pranto
que o planeta não merece rosas.
Esqueceu Deus e as leis preciosas.
Vive em guerra, dor e desencanto.

O filho ataca o pai; o pai o filho.
A insanidade tornou-se passageira.
A mentira é verdade lisonjeira.
A injustiça é toda luz e brilho.

Onde está a primavera prometida
terra de amor, de promessas, de vida,
com andorinhas pousadas nos beirais?

Os velhos são velhice desvalida.
A juventude anda louca, perdida...
E os que partem... Esses, não voltam mais!

Maria Helena Amaro
Março de 2014 

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Dia do Pai


(Óleo sobre tela de Maria Helena Amaro)

Para o Pedro Miguel:

O papá é boa peça.
É um papá muito fixe.
Mesmo que não o pareça
quando nos diz: que se lixe!

O papá é companheiro.
É mesmo boa pessoa.
Só não nos quer dar dinheiro
para gastarmos à toa.

Somos os filhos que tens,
neste dia de alegria.
Beijinhos e parabéns
do Pedro, Quico e da Bia.

E não só...
Da Mãe, Fafá e da vovó... 

Maria Helena Amaro
19 de março 2014

terça-feira, 10 de outubro de 2017

Lar


(Óleo sobre tela de Maria Helena Amaro)

A família era chão que eu pisava
A casa grande onde todos cabiam
Muitos entravam e nenhuns saiam
que a casa grande a todos abrigava

Os pais eram a força dos trabalhos
da verdade, da ordem; do rigor,
do dever, do sonho, do amor,
sem algemas, sem penas e sem ralhos

Menina e moça, cresci neste labor
dividida entre a verdade e a razão
com as mãos estendidas para Deus

O meu chão tremeu em estertor
agonias, dores, em profusão.
Perdi espaços que sempre foram meus.

Maria Helena Amaro
21 de março, 2014  

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Senhora da Saúde


(Óleo sobre tela de Maria Helena Amaro)

Abro a janela. Já passa a procissão...
A Senhora vai vestida de cetins,
leva anjos, arcanjos e querubins.
E as mães levam os filhos pela mão.

Os bombeiros de capacetes brilhantes
levam machados, fardas e pendão.
Marcham direitos como um pelotão.
A banda atrás toca hinos sonantes.

Olhos no andor, rezo a minha prece.
O barulho dos foguetes entontece
Há cheiro a maresia, vento, sol...

A vila de Esposende se envaidece.
É a festa grande, que a Senhora merece.
Dos pescadores é guia, é farol.

Maria Helena Amaro
Março, 2014