Periodicidade de publicação de poemas

Caros leitores:
Espero que desfrutem na visita a este espaço literário. Este sítio virtual chama-se “Maria Mãe” e tem como página principal os poemas de Maria Helena Amaro.
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quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Desespero


(Quadro a óleo de Maria Helena Amaro)


Senhor! Se vedes que minhas chagas
não tem cura, não merecem perdão,
Dai-me a Luz, a Paz do coração
Dai-me coragem nas horas amargas! ...

Ando perdida por entre o turbilhão
das tristes sombras de dor, do sofrimento...
Senhor! Dai-me Luz no tormento
Daí-me na Fé, a Luz da Razão!

A Minha alma vai-se apagando aos poucos
envolvida em cruel desespero
na sombra negra de desalentos loucos

Oh! Ser feliz... Ser feliz como os outros
é o que ainda ambiciono e quero
É o que peço entre meus gritos roucos!

Maria Helena Amaro
17/10/1954



sábado, 13 de dezembro de 2014

A minha Fé


(Ilustração de Maria Helena Amaro)

Estendi as mãos, a tremer, a tremer,
buscando no espaço uma ilusão...
Que encontrei?
Nada do que sonhei!
Só pó, só cinza, só loucura
em negro turbilhão
e na estrela de extrema alvura
a brilhar, a tremer,
a sorrir-me, terna, docemente! ...

E meus pés vacilaram na subida
até à estrela que brilhava
nas alturas da vida!
Chamei por ela,
não viera, não olhava...
Mas eu subi,
sem medo, sem temor.
E ao chegar à luz daquela estrela
encontrei nela
A minha Fé, Senhor! ...

Maria Helena Amaro
17/03/1955 


domingo, 26 de outubro de 2014

Ansiedade


(Ilustração de Maria Helena Amaro)


Eu desejei ser tanto, Meu Jesus!
Quantos sonhos eu ando a sonhar
quantos projetos eu ando a traçar
no meu caminho de verdade e luz...

Eu desejei ser tanto! Oh! Bem sei
que outrora não fui o que sonhaste
não quis cumprir aquilo que mandaste
e perdi-me no mundo que encontrei...

Tal como um Rei pobre, destronado
de manto sujo, negro, esfarrapado
vou mendigando um pouco de ventura

Tal como um Rei errante e exilado
busco a Luz da Fé em todo o lado
que a má sina desfez em amargura...


Maria Helena Amaro
8/02/1954

domingo, 3 de agosto de 2014

Nudez


(Ilustração de Maria Helena Amaro)

Ajoelhei-me aqui junto ao altar
e meus olhos ficaram-se sem vida
vendo o doce Jesus agonizar
numa cruz de pinho ao Céu erguida

Jesus! Podes ver-me tal qual sou
neste momento não me atrevo a mentir
tu bem sabes, bom Pai, como estou
a ti Senhor, é loucura mentir!

Todo o Bem que me deste já perdi
os meus enfeites há pouco desprezei
eis-me ajoelhada ao pé de ti
pedindo aquela luz que apaguei...

Ó Jesus! Como sou infeliz!
Tem pena da fraqueza do meu ser!
A minha alma era tão feliz
enquanto eras o meu viver!

Maria Helena Amaro
7/02/1953

domingo, 8 de junho de 2014

Senhor


(Ilustração de Maria Helena Amaro)


Sem saber onde moro, onde estou
vou caminhando só, tão pobremente
e julgo que se vive alegremente
quando se esquece tudo que se amou...

Lá ao longe canta a mocidade
bandeira erguida em gestos imponentes
vejo os jovens morenos e ardentes
mostrando ao mundo a sua heroicidade

Senhor! Que sonhaste dar-me vida
que me deste saúde, pão, fartura
transforma a minha dor toda em espuma
e dá-me a minha rota já perdida

Porque há Senhor tanta desgraça
tanta dor, tanta fome, tanto fado
tanta mancha, tanta poeira ardente?
Talvez fosse o homem mau, cruel
que transformou a vida toda mel
num caminho que se anda amargamente

Maria Helena Amaro
Braga
12/06/1952

domingo, 18 de maio de 2014

Oração de férias


















(Ilustração de Maria Helena Amaro)

Obrigada meu Deus
Por estas horas calmas e serenas
Por esta solidão feita de sol
Por este entardecer todo grandeza
Em que meus olhos são meninos cegos
A percorrer o mar…
A saltitar as ondas…
Mais longe… mais longe… até tocar
A linha azul do horizonte longo…
Obrigada meu Deus
Pelos corpos tostados das crianças
Que brincam sobre as rochas…
(- Tão tostados, Senhor, lembram carvões, jamais incendiados)
Indiferentes às ondas que os beijam
De olhos tão serenos
De risos tão inquietos
Que ninguém será capaz de recordá-los
Doentes ou mirrados…

É bom vê-los brincar
Meninos sãos de olhos transparentes
A chapinhar aos saltos
Nesses regatos deixados à tardinha
Pela maré que vai…

Obrigada meu Deus
Por esta areia escaldante ao meio dia
Como se fosse cinza incandescente
E tão doce
Tão macia e suave
À hora do Sol-pôr…

Deito-me toda aqui junto aos penedos
E fico-me a pensar…
O céu é sempre céu…
A areia sempre areia…
O mar é sempre mar…
- Ai que vontade doida de cantar!
É de risos a voz do mar gigante
E se é de risos
Porque me fico depois a meditar?
Não sei porquê…
Toda eu sou voltada para o mundo…
Onde estão aqueles meus irmãos
Que nunca têm férias?
E são tantos, Meu Deus!
Passam aos centos logo de manhã…
O homem das cautelas… a velhinha da fruta…
O pai… A mãe…
E toda aquela gente lá do bairro
Vergados e ligeiros
Como formigas humanas passeirosas
Trabalham sol a sol…
E na torreira das tardes estivais
As suas sombras são cruzes tombadas
Nas estradas sem fim…

Meu Deus
Quando eu sentir o sol queimar-me o rosto
E estas ondas vestirem-se de espuma
Fazei-me recordar
O sentido grato dumas férias
Que já foram negadas
A outras como eu
Possivelmente
Muito mais merecedoras de repouso
Mas a quem
Os mestres e patrões
Nunca deram um só dia de descanso…

Por elas
Eu quero oferecer minhas férias
O que for de mais sereno e doce
Para que nas mãos todas gretadas
Desses irmãos, operários de sempre
A tesoura, o eixo o maçarico
Se tornem muito leves
E brinquem nas mãos deles
Como as crianças brincam nos rochedos
Indiferentes ao sol e à rotina…
Dai-lhes Senhor a certeza profunda
Da tua mão guiando as suas mãos
Mesmo que o trabalho seja todo fogo
As costas todas dor
Os olhos todos mágoa
E tenham de servir a vida toda
Por algum oiro e nenhuma alegria…
Em troca desse banho de pó
Dá-lhes o teu Amor!

Por eles…
Por esses outros que têm sempre férias
E não sabem vivê-las cristãmente…
Por eles
Que na praia feita arsenal de luz
Não sabem encontrar-vos
No mar, no céu, na onda rendilhada
Nos olhos doces dos meninos sãos
Que brincam nos rochedos…

Obrigado meu Deus
Por estas horas calmas e serenas
Por esta solidão feita de sol
Por este entardecer todo grandeza
Em que meus olhos são meninos cegos
A percorrer o mar
A saltitar nas ondas
Mais longe… mais longe… até tocar
A linha azul do horizonte largo…

Agora
Deixa-me Senhor falar convosco
Nesta quietude feita de coisas belas
E murmurar rezando

Dai-me Senhor
Um coração grande como o mar
Alegre como o Sol
Puro como as estrelas…

Maria Helena Amaro

Agosto de 1964

sábado, 17 de maio de 2014

Oiro desfeito em pó




(Ilustração de Maria Helena Amaro)


Não vou ficar de mãos entrelaçadas
ao ver o oiro em pó…
Não vou ficar de olhos marejados
porque me sinto só…
Ajuda-me Senhor!
rasgas os farrapos pintados de grandeza
e põe a luz nessas veredas mortas…
Horas suplicantes
Orações vivas de Fé e de Certeza
são a oferta
que posso colocar
nas calçadas sem luz
Quando a lua aparecer
a espreitar às portas
a gritar que estou só…

Olhai farrapos pintados de grandeza
oiro desfeito em pó
Agora sei
dolorosamente
porque me sinto só…

Só, com as ruas pejadinhas de gente
gente crescida e garotos descalços…
o sol não vem a estes mas mortas
e o oiro aos montes que anda pelo ar
só vai dourar
a Fé enorme que levo nos meus braços…



Maria Helena Amaro

Março, 1967

domingo, 9 de fevereiro de 2014

Oração


(Ilustração de Maria Helena Amaro)

Sem orações
sem palavras
boca fechada
alma aberta
no silêncio das coisas
eu medito
Deus não é miragem
nem promessa
nem um mito
sem orações
sem palavras
eu sou
eu acredito.

Maria Helena Amaro
Julho, 1997.

domingo, 1 de setembro de 2013

Epitáfio


















(Ilustração de Maria Helena Amaro)



Eu quero morrer cantando
junto de um rio correndo
água que vai afogando
esta dor que vai crescendo...

Eu quero morrer cantando
junto de um cato florindo
espinhos que vão sangrando
coração que vai abrindo...

Eu quero morrer cantando
junto de uma cruz erguida
luz que se vai apagando
morte que à vida dá Vida!


Maria Helena Amaro
9/06/1975

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Oração


(Ilustração de Maria Helena Amaro)


Meu Deus,
é linda a primavera
e eu não sei cantar...
As estradas coalhadas de Sol
enfeitam-se de rendas
e cobrem-se de azul...
E à noitinha,
perdidas nos valados,
debaixo de luzeiros
andam borboletas de água a cintilar...

Meu Deus
Meu Deus das coisas belas,
é linda a primavera
e eu não sei cantar...

Passam por mim
os rostos todos luz
as raparigas cheirosas a giestas
e as minhas  alunas
as minhas alunas pequeninas
trouxeram-me ontem
para enfeitar a sala
um ramos de camélias pequeninas...

Vai dizer-lhes ó Deus
que a professora
não pode ver chegar a Primavera
sem chorar...


Maria Helena Amaro
abril,1970
(Concurso Pedro Homem de Melo) 

quinta-feira, 15 de março de 2012

Oração (III)



Meu filho
Tão pequeno, tão puro, tão divino…
Olho para ti
Com os olhos suspensos do meu sonho
E murmuro baixinho:

Meu Deus
Deixai-o ser
Assim humano e puro
Toda a vida
Na alma
Pequenino…





Maria Helena Amaro
In, «Maria Mãe», 1973.

sábado, 28 de janeiro de 2012

Oração (II)

Nossa Senhora
Nossa Senhora de carinha feia
De vestes cinzeladas
Do presépio da aldeia
Senhora branca de cabelos dourados
De mãos sem dedos,
(dedos de barro apenas esboçados…)
Pousadinhas a medo
Sobre os joelhos hirtos…
Nossa Senhora Mãe
Quantos caminhos andaste até Belém?
Estradas de serrim…
Nevados de algodão…
Caminhos de espinheiros…
Montados e desertos…
- Vaidoso vai o punho
Que vos pintou sapatos tão bonitos!...

Senhora linda de carinha feia
Dai-me o Vosso Menino enfaixadinho!
Quero levá-lo
Assim humano e puro
de porta em porta
pelas ruas do mundo…

A Rosa da Esquina tem meninos…
(tem meninos sem pai…)
Rotos, famintos, vestidinhos de trapos…

Quem me dera metê-los num Presépio
Num Presépio da aldeia!...
Dizê-los filhos duma Nossa Senhora
Nossa Senhora de carinha feia…
Magrinhos e sumidos
Vão pelas ruas
A chapinhar descalços
De mãos dadas nas mãos
Juntinhos
Nos passeios…

Nossa Senhora do Presépio da aldeia
De olhos tão distantes
Mãe dos Meninos da Rosa da Esquina
(os meninos sem pai)
Fazei-vos sopro e vida…
Trazei Convosco o Menino Dourado
E vamos pelas ruas
De porta em porta mostrá-lo a toda a Dor!
Levá-lo em fogo a cada sonho em grão.
Doá-lo inteiro a cada Amor negado…
Havemos de deixá-lo
Nos lares desertos onde haja sonhos mortos
Enterrados nas rendas
Dos bercitos vazios…
No regaço das mães
Que foram mães de meninos dourados.
(Meninos homens que hoje são soldados…)
Nos bairros miseráveis
Das crianças sem pais
E dos pais sem crianças…

Havemos de levá-lo
À fonte, à Guerra, ao Ódio, à Amargura
À aridez das almas sem Ventura
Ao Desespero dos crimes sem Perdão…

Vinde comigo
Nossa Senhora de carinha feia
(apagada e perdida num Presépio de aldeia)
Trazei convosco o Menino enfaixado
De auréola forjada
Com fios de metal…

Os meninos sem pai
Da Rosa da Esquina
Terão o seu Natal!

Maria Helena Amaro
In, «Maria Mãe», 1973

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Oração


Senhor,
Vem ter comigo
No silêncio da sala vazia
De carteiras mudas que os dedos trigueiros dos meninos
Inconscientemente
Polvilharam de tinta…

Não olhes as manchas azuis, Senhor!
Tu SABES
Que os dedos criminosos
Já foram castigados
E a tinta foi raspada do chão…
Mas, Senhor,
Dentro de mim
Ficou a ressoar
O choro convulso e magoado
Dum que talvez merecesse o meu perdão
 E o não teve…
Vem ter comigo,
Depois de um dia que podia ser cheio
E foi talvez vazio
E triste
E apagado
E tão insatisfeito como eu…
          ( - Ai esta fome de perfurar o Céu!...-)
Não apenas
Porque, pedagogicamente,
Não se deve bater,
Mas, sim,
Porque não há nada tão inconsciente
Como uns dedos inquietos de menino
Metidos num tinteiro…

Vem ter comigo,
 No silêncio da sala vazia,
Agora,
Que eles foram a cantar caminho fora
E me deixaram só
Com a lembrança do choro magoado
A conversar
Contigo meia hora!...

Amanhã,
Senhor,
Não FIQUES PREGADO a tarde inteira.
VEM.
E toma o teu lugar…
Quando em coro rezarmos,
E tudo for unção,
Dá-me a força enorme e luminosa
De começar o meu trabalho
De olhos a sorrir,
Apesar das manchas azuis
A sombrear o chão…
Apesar dos fatos rotos
              ( - Rotos e mal cheirosos…)
Que a chuva lava
E o sol enxuga levemente…
De olhos a sorrir,
Apesar de tantas faces magras
E olhos transparentes
A perguntar os «quês»
De coisas sem sentido…
E às vezes, Senhor,
Às vezes,
Apesar de repetir
Que as mãos dos meninos são de neve
E vê-las junto de mim
Vestidinhas de negro…

Vem ter comigo, Senhor!
Mas, VEM,
Principalmente,
Quando a Ana ciciar a lição

Naquela voz pausada
De quem sabe e não se quer ralar…
Vem, Senhor!
Mas, VEM,
Principalmente,
Quando a paciência disser «sim» ao cansaço
E eu erguer o braço
E me esquecer
Que TU ESTÁS aí,
Silenciosamente,
A VER…

Vem
Quando eu explicar as tais frações
E as outras lições
Que fazem bocejar…
Vem ter comigo, Senhor,
No silencio da sala vazia,
Agora, que eles foram a cantar caminho fora
E ENSINA-ME

Nesta quietude das carteiras mortas
Que as almas são mais,
Muito mais importantes
Que os ditados sujos
Que as contas erradas
Que os olhos parados
Que os fatinhos rotos
              (- Rotos e mal cheirosos!- )
Que as mãozitas negras
Que as manchas de tinta já raspadas…

Vem ter comigo
No silêncio da sala vazia
De carteiras mudas
E que eu decore,
Não como a Rosa decora a tabuada,
             ( - Ela apenas consegue decorar!- )
A frase escrita a verde

Nas folhas brancas do meu quotidiano:
            - É preciso saber PERSEVERAR!!!...


Maria Helena Amaro
In, «Maria Mãe», 1973