Periodicidade de publicação de poemas

Caros leitores:
Espero que desfrutem na visita a este espaço literário. Este sítio virtual chama-se “Maria Mãe” e tem como página principal os poemas de Maria Helena Amaro.
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terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Crianças (1957)


(Fotografia de António Sequeira)

Eram crianças
de camisas rasgadas
calças esburacadas
descalças sobre a lama...

São lembranças
lembranças de crianças
que vivem nas lembranças
de quem as quis e ama

Perduram nas lembranças
lembranças que não cansam
e preenchem a alma...

Eram crianças...
Hoje não há crianças
há apenas lembranças
que a saudade acalma.

Maria Helena Amaro
Abril, 2014 

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Imagens - 1957 - Esposende


(Fotografia de António Sequeira - Praia do Lombo Gordo, Nordeste, S. Miguel, Açores)

Crianças sujas, descalças
ao fundo da minha rua...
Rotas, camisas e calças,
corpo frio e alma nua.

Cheiram a peixe salgado,
a iodo, a maresia,
e correm por todo o lado,
tarde quente ou tarde fria.

Têm olhos azulados
cor do mar, do firmamento,
rostos sardentos tostados,
ressequidos pelo vento.

Sabem de cor as lições
que lhes falam de marés,
também dizem palavrões,
gritam, batem com os pés.

São montanhas de alegria...
São quadros de pobreza...
Pão nosso de cada dia
nesta praia portuguesa...

Meninos que tanto riem
esquecidos da riqueza?
Por onde anda a vossa mãe?
Vende peixe, com certeza...

Crianças sujas, descalças
ao fundo da minha rua...
São imagens de desgraças...
Tristezas... que sorte a sua!

Maria Helena Amaro
Janeiro, 2011


domingo, 15 de junho de 2014

Criança


(Ilustração de Maria Helena Amaro)

Criança! O teu olhar... essa pureza
nesses olhos cheios de doçura
parecem acalmar esta amargura...
Esta sombra... esta infunda tristeza...

Criança! Sonhara ser pequena, pequenina
ter para mim afagos e carinhos...
Mas dispersa em dores entre carinhos
Recordando os tempos de menina...

Quando um dia chegares a compreender
destes versos um pouco de ternura
talvez o pó seja minha planura
e d'oiro seja já o teu viver...

Levanta então o teu olhar aos Céus
e pede por mim... És toda Esperança!
Eu nunca tive amor... Cresci dos meus
que nunca me deixaram ser criança!

Maria Helena Amaro
Foz de Arouce
17/09/1952
(Dedicado a uma afilhada)

sábado, 17 de agosto de 2013


(Ilustração de Maria Helena Amaro)


meu pequenino Zé
de olhos pasmados a perfurar o céu...
Aqui, te mando a carta
escrita há tanto tempo
na era das coisas só segredo...
Lembraste Zé?
Ainda não morreu
a tonta professora
a prometer o Sol cheia de medo.
Mas, agora,
meu pequenino Zé,
vamos correr, saltar, cantar à Terra
a nossa liberdade sem segredo...
Vamos pedir aos homens
uma escola viva
sem fantoches a servir de santos
sem fantasmas a pedir sinais!
... água que mate a sede
... pão que sacie a fome
... roupa que agasalhe corpos
... justiça que perdoe
... ciência que congregue
... trabalho que redime
(Ó Zé, para quem vive tão pobre não é pedir demais...)

Meu pequenino Zé
Não te esqueças de gritar caminho fora
contra o ódio que só destrói a paz
contra o rancor que só separa irmãos...
(onde está a canção dos homens bons?)

Milionário duma verdade viva
vamos pedir aos homens
que gravem à porta das escolas
os direitos roubados à criança...
Vamos gritar
Vamos dizer
(flores na mão... flores na mão...
flores na mão...)
Não matem a Esperança!
Não matem a Esperança!

Maria Helena Amaro
Junho, 1974

domingo, 11 de agosto de 2013

Crianças do bairro da lata



(Ilustração de Maria Helena Amaro)

Na lata nasci
na lata morei
nela me perdi
nela me encontrei...
Meninos guardados
em casas de prata
meus filhos famintos
na bairro de lata...
No bairro de lata
passaram apressados
senhores de gravata
e nós... remendados!
A lata não cresce
a lata não come
a lata só desce
no mundo da fome...
Fizeram jardins
( é linda a cidade!)
Mas nós só vivemos
amarga verdade
barraca barata
no bairro de lata...

O bairro de lata
mandaram queimar...
As trouxas às costas
nós vamos erguê-lo
num outro lugar...
Semente de lata
não morre, mas mata.
Ninguém se consome
que a paz é de prata
e a vida é de fome
no bairro de lata!
Do bairro de lata
iremos fugir
descer à cidade
gritar, exigir...
Tombar os senhores
que usam gravata
um lenço de seda
um garfo de prata...
Queimar-lhe os discursos
- dinheiro é questão -
dar-lhes por almoço
batata e feijão.

E eles vão saber
sem ser por jornais
que os bairros de lata
não crescerão mais...
.............................
Venham marginais
venham à cidade
comer as flores
beber os discursos
vestir as canções,
mas digam aos homens
que usam gravatas
que mostrem gestões
que ergam cidades
sem bairros de lata!

Maria Helena Amaro
Abril, 1974
In Escola Remoçada

quarta-feira, 28 de março de 2012

Crianças


(Fotografia de António Sequeira)
Com elas eu renasço
todo o dia,
com elas
no que sonho
no que digo
no que faço…
com elas renasço.
São para mim
a força do meu braço
a cor do meu jardim
o rasto do meu passo…

É delas
Vem delas
e volta para elas…
Tudo o que digo
o que sonho
o que faço
é nelas que eu renasço!

Inédito, Maria Helena Amaro
 Julho 1991

sábado, 14 de janeiro de 2012

Quando eu era criança


Quando eu era criança,
De alma toda pura
Pensava que o orvalho das manhãs
Era pranto de fadas sem ventura...
As pedras do caminho tinham nomes,
As silvas eram belas
E quantas noites eu ficava ao relento
A contar as estrelas!...
Lançava nas poças, lá da rua,
Barquinhos de papel:
Iam cheios de bolas de sabão
Azuis ou cor de mel...
E as bonecas de trapos tinham alma
E sabiam chorar...
Quantas vezes, corria campos fora
Alegre, a saltitar!...

Quando eu era criança.
De saias rendilhadas,
A Primavera durava a vida toda
E a tristeza vestia-se de branco...
Erguia os braços atrás das borboletas,
Falava aos passarinhos...
E lavava as minhas mãos sedosas
Na lama dos caminhos...

Quando eu era criança
E as manhãs saudava a sorrir...
........................................................
........................................................
Depois...
Porque cresci, Senhor?
Os Homens ensinaram-me a mentir!!!...

Maria Helena Amaro
In, «Maria Mãe», 1973

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

O riso das crianças


O poeta parou
A meio da montanha
A procurar nas negras pemedias
Um cardo todo em flor...
Surgiam madrugadas,
No ar andava uma canção de Amor!
.............................................................

Se passam a cantar,
É bela a Primavera
E não há mistérios no luar...
Os olhos todos tule...
As faces radiosas...

Olhai o riso das crianças
Tão semelhante ao desfolhar das rosas!

Dançam as sombras estreitas
Numa rua sem sol...
Há dor a fustigá-las todo o dia!
Há Céu a espreitá-las todo o ano!
A vesti-las de esperança
Há risos de meninos
A rendilhar espaços
De etéreas mariposas...

Olhai o riso das crianças
Tão semelhante ao desfolhar de rosas!
.........................................................

O Poeta morreu
Na montanha de negras penedias
Há cardos de cores belas...
A recordar o Céu
Ficaram as estrelas 
A recordar a Vida
Ficaram as flores todas formosas...

A construir promessas
Ficou o riso das crianças
Tão semelhante ao desfolhar de rosas!

Maria Helena Amaro
In, «Maria Mãe», 1973

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Crianças


Quando elas passam
Alegres de mãos dadas
De faces prazenteiras
A rir
Às gargalhadas
De laçarotes brancos
De bibes engomados
Ou descalcinhas, sujas,
Magras, esfarrapadas,
Eu escondo entre as mãos
Os meus olhos cansados
De andar outros caminhos
De procurar estradas…


Quando elas passam
De bolsa a tiracolo
De calção curto e camisola bordada
De riso quente
A ecoar nos céus
De olhos gaiatos a espelhar o sol
Entoando canções,
Quedo-me toda de alma ajoelhada
Murmurando canções…



E porque nelas vejo a primavera
A prometer Estio,
Quando as vejo passar
A rir, a saltitar,
É como se passasse
Nesta rua sem sol
Sem paz e sem amor
A promessa serena 
Dum amanhã melhor!

Maria Helena Amaro
In: Maria Mãe,  1973