Periodicidade de publicação de poemas

Caros leitores:
Espero que desfrutem na visita a este espaço literário. Este sítio virtual chama-se “Maria Mãe” e tem como página principal os poemas de Maria Helena Amaro.
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segunda-feira, 17 de abril de 2017

Saudades

(Ilustração de Maria Helena Amaro)

Tantas saudades das campinas verdes,
das oliveiras pejadas de azeitonas,
das trepadeiras a subir nas paredes,
das sestas quentes, serenas,mandrionas.

Do velho Ceira à sombra dos salgueiros,
e dos rebanhos a pastar docemente.
Das raparigas com seus cantares brejeiros,
entre as searas no longo maio ardente.

Tantas saudades das águas das ribeiras,
dos montes, das serras altaneiras,
do cheiro a mel e a castanha doce.

Das minhas tias com rosto de luar,
junto à lareira, à noite, a crochetar...
Estava ali, a rir, toda a Foz de Arouce.

Maria Helena Amaro
11 de janeiro de 2014.

domingo, 16 de abril de 2017

Ribeira


(Ilustração de Maria Helena Amaro)

Vou perguntar à ribeira de Foz de Arouce
para onde corre tão lenta
tão quebradiça e doce
perdida e sonolenta...
- Onde vais tu a cantar ao luar
como se ainda pudesses alcançar
o Ceira longo
ou o Mondego verde...
Onde vais tu perdida
perdida e dançarina
entre os canaviais?
Onde vais tu ribeira?
- Não te alongues demais
que eu me perco em ti
que eu quero ir contigo
e não regressar mais...
Foz de Arouce... Foz de Arouce
ribeira pequenina
brinquedo de meus pais.

Maria Helena Amaro
2014

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Anoitecer


(Ilustração de Maria Helena Amaro)

Calam-se as noras ao findar do dia
Balem ovelhas entrando no povoado
Nos pinheirais já cantam a cotovia
leves queixumes num chinfrim magoado...

Sinos repicam... doce nostalgia
Cantam os rios descendo o valado
Hora das rezas - Salvé ó Mãe Maria!
Rezam mulheres no regresso do prado...

O sol já desceu vermelho e dourado
velho, tão velho de fazer chorar
É o mar azul a sua campa bela

Há nos olhos moços reino adorado
Há nos campos loiros rendas de luar
Beijam-se as flores à minha janela...

Maria Helena Amaro
Foz de Arouce, 18/11/1955

domingo, 10 de novembro de 2013

Fogo na Serra



(Fotografia de António Sequeira)


Trouxe-me o vento quente o choro dos pinhais
que o fogo crepitante chorava veloz
ardia a serra toda numa agonia atroz
entre gritos, lamentos e suspiros mortais.

Caíam feitas tochas as árvores colossais
sobre a terra escaldante numa dança feroz
e o fogo vermelho rolando como noz
ia saltar no mato, nas vinhas, nos casais...

Num espanto de dor que não termina mais
olhando a serra em brasa em proporções fatais 
sinto já nem ter alma, nem coração, nem voz...

Gritam as urzes: esses homens brutais
que lançam fogo à mata são chacais
e deviam estar em cinzas como nós!


Maria Helena Amaro
Foz de Arouce
14/08/1989
(Publicado no Jornal de Serpins)

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Dia dos Avós - 26 de julho (Casa do Pombal - Versão 2)


(Ilustração de Maria Helena Amaro)


«Casa do Pombal - Versão 2»
Dia dos Avós – 26 de julho 2013

Até ao cimo da íngreme ladeira,
ficava a casa de enorme paredes cercada.
Dava-lhe acesso o portão de madeira,
de aldraba negra, em ferro bem forjada.

«Abram a porta!» - Gritava a avó chamando.
«Abram a porta que o pastor quer entrar!»
As doces pombas espantavam-se em bando,
iam serenas no telhado poisar.

O pátio enorme cheirava a rosmaninho,
a feno verde, a cidra, a hortelã.
Os pardalitos pipiavam no ninho,
entontecidos com o sol da manhã.

Casa de agricultor! Tanto trabalho,
tanta lida, tanta vida, tanto ardor!
No tempo da azeitona, ceifa ou malho,
Trabalhavam até o sol se pôr!

Um grilo tonto na lareira escondido,
uma cigarra perdida no pomar,
a tontinegra com o seu alarido
compunha árias em noites de luar.

Vinha o cheiro de mosto do lagar,
vinham sacos de farinha do moinho,
vinha azeite da talha a gotejar,
vinha fruta, hortaliça, pão e vinho.

Primeiro foi a avó que foi embora,
cansada de trabalho e de sofrer.
Em cada mês, em cada dia, em cada hora,
doce lugar ficou por preencher.

E houve um dia em que todos partiram,
malas na mão e na garganta um nó.
Morreram uns, outros logo fugiram
ao trabalho da terra feita pó.

Fechou-se a casa, o avô ficou só;
Alquebrado, queixoso, sem ninguém…
E começou a andar… metia dó…
pela casa dos filhos: um vai/vem…

Envelheceu a casa. Em todo o lado,
Cresciam ervas… tudo era solidão.
Subiam as silvas até ao telhado
E cogumelos enfeitavam o chão.

Mas, um dia o milagre aconteceu.
Alguém a viu, alguém a desejou,
e a Casa do Pombal que se perdeu
numa alegre moradia se tornou.

Casa dos meus avós, das minhas tias,
da minha infância feliz e descuidada,
passo por ti e só sinto alegrias,
ao ver tuas paredes restauradas.

Sejam felizes os que vivem nela,
os que enfeitaram de flores a calçada,
pois colocaram vasos na janela
e fizeram da casa uma pousada.

Quando vou a Foz de Arouce de abalada
e antevejo essa casa florida,
encho de amor a minha madrugada;
São meus avós o chão da minha vida.

 
Maria Helena Amaro
Braga, alterado em julho 2013

 

domingo, 20 de janeiro de 2013

Casa da Mata

(Ilustração de Maria Helena Amaro)

 
Minha casa
minha asa
meu pátio cheio de luz
minha janela rasgada
para o nascente voltada
Meu amor... meu ai Jesus!
 
Minha casa
minha casa
minha varanda florida
com cortininha de renda
minha serra estremecida
sossego da minha vida
minha jóia minha prenda
 
Minha casa
minha asa
minha calma meu dormir
na noite tão estrelada
minha canção meu sorrir
minha alma enfeitiçada
meu anseio meu sentir
 
Minha casa
minha casa
meu abrigo ignorado
afastado dos mortais
Casa de velho telhado
Paraíso dos pardais
postigo do meu agrado.
 
Minha casa
minha casa
rodeada de olivais
de cor verde/ acinzentado
amarelo ou cor de fogo
Vou-me embora
adeus adeus
minha casa
minha asa
fujo aos céus
mas volto logo.
 
Maria Helena Amaro
Inédito, agosto de 2009.
 
 


quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Casa do Pombal

(Ilustração de Maria Helena Amaro)

Ali no cimo da íngreme ladeira,
ficava a casa de paredes cercada,
dava-lhe acesso  o portão de madeira
de aldabra negra em ferro, bem forjada.

Abram a porta! - Gritava a avó chamando -
Abram a porta que o pastor quer entrar!
As doces pombas espantavam-se em bando
iam serenas no telhado poisar!

O pátio enorme cheirava a rosmaninho,
a feno verde, a cidra, a hortelã,
os pardalitos pipiavam no ninho
entontecidos com o sol da manhã.

Casa de agricultor! Tanto trabalho
Tanta lida, tanta vida, tanto ardor!
No tempo da azeitona, ceifa ou malho
trabalhavam até o sol se pôr.

Um grilo tonto na lareira escondido,
uma cigarra perdida no pomar,
a tontinegra com o seu alarido
compunham árias em noites de luar.

Vinho o cheiro de mosto do lagar,
vinham sacos de farinha do moinho,
vinha azeite da talha a gotejar,
vinha fruta, hortaliça, pão e vinho.

Primeiro foi a avó que foi embora,
cansada de trabalho e de sofrer.
Em cada mês, em casa dia, em cada hora
doce lugar ficou por preencher.

E houve um dia  em que todos partiram,
malas na mão e na garganta um nó.
Morreram uns, outros logo fugiram
do trabalho da terra feita pó.

Fechou-se a casa, o avô ficou só
alquebrado, queixoso, sem ninguém...
e começou a andar... metia dó...
pela casa dos filhos: um vai/vem...

Envelheceu a casa... em todo o lado
cresciam ervas... tudo era solidão...
Subiam as silvas até ao telhado
e cogumelos enfeitavam o chão...

Mas um dia o milagre aconteceu,
alguém a viu, alguém a desejou
e a casa do Pombal que se perdeu
moradia alegre se tornou.

Casa dos meus avós, das minhas tias,
da minha infância feliz e descuidada.
Passo por ti e só sinto alegrias.
Ao ver tuas paredes restauradas.

Sejam felizes os que lá vivem nela,
os que enfeitaram de flores essa calçada...
fizeram dela uma pousada
e colocaram vasos na janela

E ao subir a íngrime calçada
possa eu ver essa casa florida
que encheu de amor a minha madrugada
pois foi o ninho duma família querida.

Maria Helena Amaro
Inédito, novembro de 2009