Periodicidade de publicação de poemas

Caros leitores:
Espero que desfrutem na visita a este espaço literário. Este sítio virtual chama-se “Maria Mãe” e tem como página principal os poemas de Maria Helena Amaro.
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segunda-feira, 14 de maio de 2018

As terras de Cávado


(Ilustração de Maria Helena Amaro)

Esta é a terra a que pertenço,
terra de luz, de sol, de mar, de rio,
de nevoeiros e de vento frio,
vestida de luar, em vale imenso.

Veste azul, veste rosa, verde intenso.
Veste de branco o longo casario.
Dá-lhe o sol, as cores, em desafio,
monte cinzento será o S. Lourenço.

São pedaços abertos em clareira:
Gandra, Gemeses, Curvos e Palmeira,
Bartolomeu do Mar, Marinhas - Antas.

Fão e Criás, Apúlia sargaceira
Rio Tinto, Fonte Boa leiteira
Forjães, Belinho... Ó terra que me encantas!

Maria Helena Amaro
Março, 2015 

quinta-feira, 10 de maio de 2018

Berço


(Ilustração de Maria Helena Amaro)


Esposende foi um berço de embalar.
O vento frio a minha cantadeira.
Vinha-me do S. Lourenço o seu luar.
O cheiro a iodo da praia sargaceira.

Alimentei-me de sol, de luz, de mar,
com gritos roucos que vinham da ribeira.
Via as gaivotas, no rio a planar.
Ficava a sós, a rir, a tarde inteira.

Tinha vestidos com rosas de toucar...
Era de contas azuis o meu colar...
Sonhava navegar numa traineira...

Corria alegre descalça, a saltitar
nas pocinhas que a maré vinha beijar.
A onda louca era a minha companheira.

Maria Helena Amaro
Maio, 2015


domingo, 7 de janeiro de 2018

A minha rua


(Fotografia de António Sequeira)

Nasci numa territa à beira mar.
Vivi lá a infância, a juventude,
na rua da Senhora da Saúde,
rua de sol, de vento, de luar....

Em tempos, de política, passageiros,
foi chamada de 15 de agosto.
Também lhe chamaram (que mau gosto!)
rua Dr. Trigo de Negreiros.

Três nomes numa rua é um espanto.
Perde a graça, o riso e o encanto.
É uma coisa que ninguém entende...

Senhora da Saúde é o mais bonito.
Lembra o povo, a fé, o infinito:
- Santa Maria é a padroeira de Esposende!

Maria Helena Amaro
Novembro de 2014.




segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Senhora da Saúde


(Óleo sobre tela de Maria Helena Amaro)

Abro a janela. Já passa a procissão...
A Senhora vai vestida de cetins,
leva anjos, arcanjos e querubins.
E as mães levam os filhos pela mão.

Os bombeiros de capacetes brilhantes
levam machados, fardas e pendão.
Marcham direitos como um pelotão.
A banda atrás toca hinos sonantes.

Olhos no andor, rezo a minha prece.
O barulho dos foguetes entontece
Há cheiro a maresia, vento, sol...

A vila de Esposende se envaidece.
É a festa grande, que a Senhora merece.
Dos pescadores é guia, é farol.

Maria Helena Amaro
Março, 2014
   



domingo, 1 de outubro de 2017

Dunas


(Fotografia de António Sequeira)

As dunas de Esposende guardam sonhos
de piratas, sereias, caravelas,
tempestades, naufrágios e procelas,
noites de breu, pesadelos medonhos.

As duas de Esposende são abrigos
em manhãs rubras, quentes, escaldantes.
São o refúgio de noivos e de amantes.
São testemunhas de inesperados perigos.

Contam as lendas que em noites de luar,
as feiticeiras adejam sobre o mar,
vão às dunas acender fogueiras.

Os pescadores ao vê-las a bailar,
deixam as redes nas ondas a boiar.
Dançam com elas nos convés das traineiras.

Maria Helena Amaro
Esposende, fevereiro de 2014

sábado, 18 de fevereiro de 2017

Esposende


(Ilustração de Maria Helena Amaro)

Um raio de sal
um golpe de vento
um copo de espuma
um todo de bruma
um grito de mar
uma asa branca
um monte que cresce
uma duna deserta
uma casa isolada
uma nuvem de azul
um pedaço de sonho
um abraço que afaga
um sorriso que acende
uma lenda uma praga
uma história que prende
e neste poema
recordo Esposende...

Maria Helena Amaro
Maio, 2014

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Mar


(Ilustração de Maria Helena Amaro)

Gosto de mar
dos búzios
das conchinhas
dos beijinhos
das algas
das marés...
Dos penedos
das dunas
das pocinhas...
Gosto do mar
das ondas altaneiras
que molham o meu rosto
das espumas de renda
que alagam os meus pés...
Gosto do mar
dos barcos
das traineiras
dos gritos
dos pregões
da lota em desalinho
e até dos palavrões
que ouço nos caminhos...

Gosto do mar
do ronco do farol
dos penedos do breu
das gaivotas serenas
a voar na marina...
Gosto do mar
do azul deste céu
até do nevoeiro
que me molha e me prende
quando caminho só
na praia de Esposende...

Gosto do mar...
Da serra vim
para nascer aqui
de parto prematuro...
O mar foi o meu senhor
foi meu berço seguro.
O mar foi meu amor...
Foi meu parceiro
no descobrir a Fé
no rosto tão tisnado
arrogante e trigueiro
de um velho pescador.

Gosto do mar.
Mais do que tudo aposto.
Desculpem os serranos,
desculpem, por favor,
mas é do mar,
mas é do mar que gosto!

O mar não tem idade...
O mar não tem medida...
Por isso é que eu o amo
e ele me possui
aqui, por toda a vida!

Maria Helena Amaro
Esposende
8 de agosto de 2011

segunda-feira, 14 de março de 2016

Bailai ...


(Ilustração de Maria Helena Amaro)

Bailai, bailai, nas asas do vento
enquanto a maré cheia se esvazia
sob o céu azul do firmamento
onde o sol rubro se despede do dia.

Bailai, bailai nas asas do vento
sobre a viscosa e magra penedia
quando as gaivotas chamam o mau tempo
e o mar é noite, sossego, nostalgia.

Bailai, bailai nas asas do vento
quando as ondas são montes de agonia
e lembram horas de terror e de tormento

Bailai, bailai, nas asas do vento
depois da noite há de vir alegria
no sol nascente doce, sereno, lento...

Maria Helena Amaro
Esposende, 21/08/2012

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Bruma


(Ilustração de Maria Helena Amaro)


Logo de manhã
ao abrir a janela da alma
sinto a agonia
cobrir-me toda num lençol de bruma...
É como o nevoeiro
na praia de Esposende...
Desce de manso
estende-se no ar
e tudo prende...
Cobre-me toda
os olhos, os ouvidos,
o rosto, os braços, os seios,
os cabelos...
Cobre-me toda e se estou despida
sinto-o na pele viscoso
e aquecido
como sopro de duende.

Maria Helena Amaro
Julho, 1992

sábado, 28 de setembro de 2013

Praia de Esposende


(Fotografia de António Sequeira)

Passaram anos velozes
que me fizeram esquecer
rostos e nomes... as vozes
não mudaram no dizer...

Dos grupos chegam a mim dizer
conversas e gargalhadas...
A mesma alegria... (enfim!)
de pessoas animadas.

Só eu fico no remorso
das coisas abandonadas
São horas feitas descanso
gritos de pedras lançadas...

Não vou dizer que estou morta
ou que esqueci o passado.
Mas quem bate à minha porta
só tem silêncio gelado.

Quanto mais tempo vai ser
este tempo sem medida?
Quem sabe do meu viver
deste viver sem ter vida?

Olho na palma da mão...
Só vejo linhas cruzadas...
este pobre coração
vai ver mais encruzilhadas?

Nos sonhos e no viver
procuro o lado da arte...
Mas quando tem que escolher,
só recebe a pior parte...

Por isso pergunto à vida,
se na força do viver,
eu só posso ter saída
se for capaz de escrever...
 
Maria Helena Amaro
Agosto, 1987

quarta-feira, 10 de julho de 2013

Elegia a uma peixeira de Esposende


(Ilustração de Maria Helena Amaro)


Menina linda de farrapos vestida
porque na tua dor
consegues ser
resignada e nobre
humana e pura
ensina-me as palavras luminosas
do cântico da vida...
Menina linda de farrapos vestida!

Menina linda descalça pela rua
de mãos traçadas num jeito de mulher
porque na tua dor
consegues ser
resignada e nobre
humana sem ser má
e pura sem ser fria
Ensina-me as palavras luminosas
do livro d' Alegria...

Quando tu passas
menina linda de farrapos vestida
o temporal desfaz-se
e o barco da esperança torneado de cantigas
vais tu levá-lo ao mar...
Nas tuas mãos estreitas e morenas
vai a concha da vida...
E eu não sei
porque te ris dos meus sorrisos mortos
se me vesti de rendas
E tu lá vais de farrapos vestida...
Grito de sangue, de dor, de maldiça
é o teu grito
a que chamam pregão...
Ah, mas eu sei
que esse grito
menina de farrapos vestida
é o cântico branco
que te ensinaram a cantar à Vida!
Quando tu passas
menina linda de farrapos vestida
humana e pura
misto de carne, de fome de quimera
eu fico só por detrás da cortina
a murmurar canções,
canções de sol que chamem primavera
e, a minha prece ao Céu, à Terra, ao Mar
prece de fogo, de desespero e dor
é sempre igual
sem nome e sem medida,
mas jamais tem a força do pregão
esse pregão que soltas divertido
menina linda de farrapos vestida!

Maria Helena Amaro
Esposende, agosto de  1970.
Publicado em "Aurora do Lima".


terça-feira, 6 de novembro de 2012

Sagarrito


(Ilustração de Maria Helena Amaro)


Sou filho duma peixeira
sou filho dum pescador
o meu lar foi a traineira
o mar f (é) o meu Amor!

Onda vem... e onda vai
onda vai e onda vem
Lá corro atrás do meu pai
e da saia da minha mãe!

A nuvem p´rá mim é Sol
O sol é brasa que arde
Procuro a Luz do Farol
quando surge a tempestade

Tenho cieiro na boca
tenho frio no nariz
Procuro o cheiro da doca
que me torna tão feliz!

Maria Helena Amaro
Inédito, janeiro, 2009

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Guiomar

















(Ilustração de Maria Helena Amaro)


Guiomar
vai no mar
rosto de cor
riso em flor
ver seu amor
a mergulhar...

Guiomar
não vai nadar
vai só ver
o seu amor
na espuma do mar
no seu batel
a navegar...

Ai, Guiomar
se não fosse o luar
a reparar
no seu rosto de cor
entregava sem pensar
o seu rubor...

Mas Guiomar
foi ao mar
com seus olhos de menina
fez do mar
a sua sina
e do João
seu amor,
o acaso
a neblina
que a prendeu
que a prende
nesse verão que não morreu
lá na praia de Esposende.

Maria Helena Amaro
Inédito, janeiro, 2009

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Esposende IV

(Fotografia de António Sequeira)


Princesa encantada
de face trigueira
no rio lavada
filha de sereia

De algas vestida
de vento embalada
na tarde aquecida
na noite encantada.

Lá vai de chinelos
Lá vai de traineira
de roupa às janelas
mirar a ribeira

Anos se passaram
e ela cresceu
nuvens a levaram
tão perto do céu

O mar é senhor
dos sonhos que tem
A onda é pendor
O rio o seu bem.

Ninguém a requer
Ninguém a entende
Sua graça é mulher
Seu nome Esposende.

Maria Helena Amaro
Inédito, novembro, 2008

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Esposende III














(Ilustração de Maria Helena Amaro)

Esta é a linda terra onde nasci
e embalei meus sonhos de criança
onde estudei e trabalhei e vivi
tempos antigos de luz e de bonança

Outrora vila, hoje já é cidade,
morena/loira, airosa, sorridente...
Revejo ruas; tanta claridade!
Rostos e nomes... as casas... tanta gente!

Vou na marginal e olho o rio,
bate em meu rosto um vento leve e frio,
vejo as gaivotas suspensas sobre o mar

Desliza o carro na estrada cinzenta
esvai-se o sol na tarde pardacenta
quem chega, fica; quem parte quer voltar!

Maria Helena Amaro
outubro de 2008
Poema publicado no Jornal "Diário do Minho", ?.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Esposende II


(Ilustração de Maria Helena Amaro)


Não vale a pena Amor
não vale a pena
não vale a pena
voltar a Esposende
Nada possuo lá
nada me prende
a não ser esta dor
esta imensa pena.


O meu quartinho azul
a casa onde nasci
virou igreja de um deus
em que não creio
ai esta dor, esta dor no meu seio
ai a saudade da terra
onde vivi.

A casa de meus pais
que a sorte me tirou
em troca desta dor
que me esmaga
e me prende
Casa da minha infância
de mistério e duende
na voragem do tempo
tudo o tempo levou...

Ficou só em meus olhos
um punhado de mar
do mar que eu amei
do mar que eu temi
Ao lembrar Esposende
recordo-me de ti
dos teus olhos nos meus
em noites de luar.

Não vale a pena Amor
não vale a pena
não vale a pena voltar a Esposende
Se falo no passado
assim, ninguém me entende
e fico-me calada
Apática serena.

Não vale a pena Amor
não vale a pena
este tormento em mim
é passageiro
toda me envolvo como o nevoeiro
torna-me morta,
esquecida, pequena.

Passam os anos
são anos esquecidos
não vale a pena
voltar a Esposende
Já ninguém me conhece
nem atende
pertenço já ao vale dos recolhidos.

Não vale a pena Amor
não vale a pena...

Maria Helena Amaro
Inédito, maio 2004.

sábado, 9 de junho de 2012

Memória (Esposende, 1957)

(Fotografia de António Sequeira)


O vento, o vento soprava.
Mas que forte ventania...
Batia a porta, batia
e eu a porta agarrava...
Toda eu estremecia...

O vento, o vento soprava
quer de noite quer de dia...
e se a porta se abria
era o luar que entrava
todo o meu corpo tremia...

O vento, o vento soprava
e as flores do terraço,
abanavam, num abraço...
No chão o vento dançava
e eu apressava o passo

Na memória me ficou
aquela porta batendo
dia a dia a toda a hora...

O corpo me estremecendo
foi vendaval que passou
e não me levou embora...

Maria Helena Amaro
Inédito, outubro, 2004

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Esposende





Nasci na terra do vento,
minha mãe era a nortada,
o meu pai um catavento,
meus irmãos, a passarada…

Foi meu lar o vendaval,
feito de noite e saudade,
o meu berço o temporal,
minha sina a liberdade…

Minha riqueza a traineira,
navegando sobre o mar,
sobre a onda traiçoeira,
com medo de naufragar.

Dormi na areia da praia,
a escutar a sereia.
Pus a secar a minha saia
no estendal da Ribeira.

Cresci perdida no tempo,
entre o sol e o luar.
Eu nunca quis casamento,
mas sempre soube noivar.

Nas asas de uma gaivota,
andei suspensa no ar.
A vender peixe na lota
aprendi a apregoar…

A falar tudo me entende,
a contar não tenho idade…
O meu nome é Esposende
da Saúde e Soledade.

Maria Helena Amaro
Inédito, agosto, 2009


terça-feira, 22 de novembro de 2011

Pescador de Esposende


O farol foi a luz da tua vida…
O choro do mar o teu lamento…
Embarcadiço nas asas do vento,
no por do sol, fizeste despedida.


Cresceu-te a barba; branqueou-se o cabelo.
Já não és mais o jovem pescador,
a agoirar os que têm vigor,
apenas és o Velho do Restelo.


Se eu pudesse, meu saudoso Amigo,
cantar em verso a tua vida austera,
num trabalho que custa, gasta, prende…

Tantas coisas que penso e que não digo,
tantos naufrágios de uma outra era,
num livro só, eu poria – Esposende.


Maria Helena Amaro
Inédito – 1 de maio 2009

sábado, 19 de novembro de 2011

Gaivota Velha



Se eu fosse gaivota
voava sobre o mar
à procura de uma doce sereia
que viesse cantar
a mais bela de todas as canções…

Se eu fosse gaivota
voava sobre o mar
à procura de um belo pescador
que saciasse em mim
a fome de cantar…

Se eu fosse gaivota
voava sobre o mar
à procura de uma fada ou duende
que me levasse nas asas
pois as minhas
tão velhas e cansadas
só voam já
sobre o mar de Esposende.

Inédito, Maria Helena Amaro
Janeiro, 20, 2011