Periodicidade de publicação de poemas

Caros leitores:
Espero que desfrutem na visita a este espaço literário. Este sítio virtual chama-se “Maria Mãe” e tem como página principal os poemas de Maria Helena Amaro.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Vou contar-te uma história


(Ilustração de Maria Helena Amaro)

Conheci a vida quando era menininha,
e precisei de um berço e de um abraço
de uma mão segura a guiar o meu passo,
a aprender a dar muito que tinha

Eu tinha uma alma de andorinha
precisava de vôo, luz, espaço
e de um abrigo quente, de um regaço,
quando a noite chegava tão lameirinha...

De vôos arriscados o meu pai me detinha
de sonhos e conversas a mãe era a vizinha
que desviava de mim a dor, o embaraço...

A vida que vivi é a história velhinha
de uma princesa no amor rainha
que escreveu poemas e os atou num laço.

Maria Helena Amaro
Braga, 1/12/2014 

domingo, 30 de novembro de 2014

Meditação


(Ilustração de Maria Helena Amaro)

Eu queria Luz... e tinha noite escura!
Eu queria Amor... e tinha uma ilusão
Eu queria Verdade... e dizia mentiras!
Eu queria fé... e contava dar Vida,
à sombra, à escuridão!

Queria ser alma... não tinha coração!
Queria ser boa... desprezava a virtude!
Queria ser santa... renegava o fervor!...
E era um nada...
Uma folha caída...
(Folha de livro? Sei lá!)
- Amava a vida...
Mais do que a mim, mais do que Deus
mais do que o mundo...
Amava, sem amar...
Queria, sem procurar...

Depois... busquei nas trevas
enriqueci-me de tudo
de tudo que era noite!

Busquei nas trevas
e encontrei nos caminhos da luz
alvoradas de Luz!...
E na Luz encontrei a Verdade
e encontrei Amor...
E debruçado sobre a minha alma
Vos encontrei, Senhor!!!...     


Maria Helena Amaro
10/02/1956

sábado, 29 de novembro de 2014

Páscoa


(Ilustração de Maria Helena Amaro)


Encontrei o Senhor no meu caminho
Vinha exangue, triste esfarrapado
trazia no olhar, sonho magoado
um mundo imenso de Amor e carinho...

Passei por Ele sem O ver, sem parar
silenciosa, fria indiferente
sabia a pó a minha boca ardente
sabia ao nada a vida a despertar....

E o Senhor parou na minha estrada
poeirenta cheia de rosas murchas
onde caí na lama espezinhada...

Olhou-me e com voz toda magoada
pondo nas minhas as suas mãos enxutas
numa palavra eu fiquei perdoada!


Maria Helena Amaro
19/03/1955

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Nunca mais! ...


(Ilustração de Maria Helena Amaro)

Minhas quimeras, meus sonhos, meus anelos
Ninguém os viu, ninguém os encontrou
foram-se com o tempo fugaz que os levou
má desventura a minha de perdê-los

Busco-os no espaço vazio dos meus olhos
em que sonhei não mais os encontrar
que importa o sonho - miragem salutar -
se elas estão tornados em abrolhos?

Um é chaga, outro dor, outro desgosto
outro as sombras sulcadas no meu rosto
outro o eco dolorido dos meus ais

Pergunto se voltou, um sopro, um gemido
ao meu olhar no espaço perdido
e ele diz-me: Nunca mais! Nunca mais!

Maria Helena Amaro
18/03/1955 

domingo, 23 de novembro de 2014

Já não sou poeta


(Ilustração de Maria Helena Amaro)

A noite escura cobriu os olhos meus
e a inspiração ameaçou fugir
Já não sou poeta! Já não busco a sorrir
no espaço azul a vibração dos céus!

Já não sou poeta! Já não tenho em mim
um doce sonho, feliz, abrasador
não tenho em mim a beleza do amor
e só peço a Deus um prematuro fim...

As minhas mãos no peito se cruzaram
e os meus dedos ficaram-se crispados
numa revolta, cruel, indefinida...

Já não sou poeta! As ilusões passaram
só os meus sonhos, em versos transformados
ressoam tristes, na minha triste vida!

Maria Helena Amaro
27/03/1955

sábado, 22 de novembro de 2014

Saudade...


(Ilustração de Maria Helena Amaro)

Saudade...
Saudade da frescura da manhã
do cheiro a alecrim
a mel e a castanha
a lagar a jeropiga
a trevo e hortelã...
Do comboio da linha da Lousã
a dançar nos carris
em busca de Serpins...
Dos corvos negros a gritar
por cima de olivais...
das cotovias
mochos e pardais
a namorar
as azeitonas caídas no terraço...

Do passeio matinal
até à Vila da Lousã
do pingo quente
no café da esquina
café da D. Lúcia
que nos servia gentilmente
com o seu rosto tão fresco
de menina...

Saudade...
Saudades da sesta caloreira
em que brincávamos
os corpos encharcados de suor
nas águas cristalinas
de godos reluzentes
do velho Rio Ceira.

Saudade...
Saudades das noites estreladas
dos cantos das cigarras
que vinham até mim...
e as luzes distantes do Trevim.

Saudade...
Saudades da festa da Pégada
da chanfana
arroz doce
tigelada...
dos espantalhos erguidos nos trigais...

Saudade...
Saudades de ti
de mim
de tudo que foi a nossa vida.
Em aventuras tais
e que não regressam mais!

Maria Helena Amaro
Braga, novembro, 2014.

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Meus versos


(Ilustração de Maria Helena Amaro)

Meus versos são soluços comprimidos
que saem pouco a pouco de meu peito
são lembranças do meu sonho desfeito
são o eco dos meus débeis gemidos

Meus versos são poemas da tortura
que minha alma murmura em desatino
são atalhos tortuosos do destino
que me conduzem à negra desventura

Meus versos são rosários de amargura
são os cânticos daquela ventura
que eu sonhei um dia com ardor

Meus versos são os muros arruinados
os meus castelos de ilusão levantados
Meus versos são hinos sem Amor!

Maria Helena Amaro
24/07/1953