Periodicidade de publicação de poemas

Caros leitores:
Espero que desfrutem na visita a este espaço literário. Este sítio virtual chama-se “Maria Mãe” e tem como página principal os poemas de Maria Helena Amaro.

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Pomba perdida


(Ilustração de Maria Helena Amaro)

Aquela pomba que partiu para além
em manhã fria de sombrio outono
não mais voltou, não mais soube ninguém
se acaso morreu ao abandono

Voou, voou no espaço azulado
mais cinzento, mais triste nesse dia
e não mais voltou ao passado
a sua alegre e linda moradia

Pomba formosa de extrema brancura
que um dia foste à cata de ventura
volta de novo ao teu antigo lar

Há quem espere chorando de amargura
a tua fuga alada à desventura
e a tua vida de neve a despertar...

Maria Helena Amaro
Braga, 20/12/1953

domingo, 12 de outubro de 2014

Outono


(Ilustração de Maria Helena Amaro)


Canção do outono que tanto me entristeces
vem embalar-me nas tuas nostalgias
põe-me na alma as loucas fantasias
com que à noite, em pranto, me enterneces

Quando à tarde à hora do sol por
quando a folhagem ciciar baixinho
mil lamentos e faltas de carinho
quero que tu me cantes só Amor

Canção do outono que à noitinha o vento
canta baixinho o tempo que passou
por entre as árvores já todas despidas

Canção de outono que é quase um lamento
daquelas folhas que o vento levou
e que agora são folhas já caídas.


Maria Helena Amaro
Braga, 18/12/1953 




sábado, 11 de outubro de 2014

Romance



(Ilustração de Maria Helena Amaro)

Eu já tinha esquecido aquele sonho
para o mundo já tão incompreendido
eu quase já me tinha convencido
que o futuro jamais era risonho

Eu já tinha chorado de saudades
e de te amar me tinha arrependido
mas tu vieste recordar o esquecido
recordações de mentiras - verdades

Acreditei em tudo que disseste
com esses olhos de tristeza  infinda
que nos meus, a medo, depuseste

E aquele sonho que  amamos ainda
é a promessa que um dia fizeste
é a lembrança do sonho que não finda!

Maria Helena Amaro
23/11/1953




quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Mentira


(Ilustração de Maria Helena Amaro)


Quanta loucura eu ando a sonhar
Quanta ilusão eu ando a viver
Pela verdade em que não quero crer
Pela mentira que quero acreditar

Eu que outrora só podia amar
toda a verdade que conseguia ver
em cada dia da vida a renascer
e caminhava só sem tropeçar...

Mas um dia eu menti sem saber
Disse mentiras que ouvi dizer
que andavam perdidas pelo ar...

Desde esse dia fiquei só a sofrer
e nunca, nunca mais pude esquecer
essa mentira que vivo a recordar...

Maria Helena Amaro
Braga, 17/11/1953

domingo, 5 de outubro de 2014

Lendas



(Ilustração de Maria Helena Amaro)


Há lendas que nunca sei contar
tão fugidia eu ando de carinho
Há imagens que quero recordar
e lembranças perdidas no caminho

Há dores que não sei suportar
longas insónias dum infindo sofrer
Há coisas belas que não consigo amar
e ilusões que não posso viver

Há ideias perdidas pelo ar
neste mundo de descrença sem par
de desespero e de futilidade

Há pensamentos que não posso ocultar
Há amarguras que não sei chorar
e há dentro de mim uma saudade...

Maria Helena Amaro
Esposende, 13/11/1953

sábado, 4 de outubro de 2014

Leva-me...


(Ilustração de Maria Helena Amaro)

Adeus ó Sol que em breve vais partir
lá para longe, além, além do mar
leva-me contigo porque eu quero amar
os outros mundos que tu vais colorir

No teu manto de oiro diamantino
há corações que enchem o meu mundo
todo feito de sonho e amor profundo
onde os abismos se chocam em desatino

Quando parti debaixo desse manto
que põe em cada gota um terno encontro
que põe em cada riso uma flor

Leva-me ó Sol, leva-me a longas terras
que ficam além, além das serras
onde tu desces triste e pensador!

Maria Helena Amaro
Braga, 11/02/1953 

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Regresso à escola


(Ilustração de Maria Helena Amaro)


Entrava na sala lentamente
e abria as janelas com brandura.
A aula é para mim uma aventura
em que embarcava feliz e sorridente.

Quando a sineta tocava estridente
e a algazarra enchia o corredor,
era sinal da hora do labor,
de ocupar a alma, o coração, a mente.

Olhava as crianças sem demora:
«Bom dia, bom dia, professora.
Que vamos fazer hoje? Que lições?»

A minha sala era um livro aberto.
O silêncio e o amor eram, por certo,
o melhor meio de encher corações.


Maria Helena Amaro
Braga, 19 de setembro 2014
Inédito