Periodicidade de publicação de poemas

Caros leitores:
Espero que desfrutem na visita a este espaço literário. Este sítio virtual chama-se “Maria Mãe” e tem como página principal os poemas de Maria Helena Amaro.

domingo, 17 de novembro de 2013

Lôas




















(Ilustração de Maria Helena Amaro)

O meu coração vadio
quer sair da tua mão...
Coração tão arredio
não merece compaixão...

O meu coração vadio
quer sair da tua casa...
Coração cheio de frio
à procura de uma asa...

O meu coração vadio
quer sair do teu caminho...
Tal como a água do rio
corre atrás de outro carinho...

O meu coração vadio
há de perder-se na rua...
Não tem vergonha nem brio
leviano como a lua.

O meu coração vadio
já cansou do teu bem querer...
Agora eu já sei... eu vi-o
lentamente vai morrer...

O meu coração vadio
quando morto, mesmo a sério
põe-no em terreno baldio,
longe do teu cemitério...

Não vá ele fugidio
num gesto desesperado...
Ir cantar ao desafio
este tormento calado...

Ir cantar fio, por fio
coisas mortas do passado,
este coração vadio
que vive tão destroçado!


Maria Helena Amaro
Maio, 1990

sábado, 16 de novembro de 2013

Noite


(Ilustração de Maria Helena Amaro)


Invento um poema para dizer à noite,
quando espreito as estrelas da janela...
Falo com elas... O frio é um açoite,
mas, mesmo assim, eu acho a noite bela.

Não sei se a noite quer escutar poemas.
Mas sei que as estrelas são quase seres divinos.
Levam nas asas duas grandes luzernas.
Levam a Deus mensagens, preces, hinos...

Quedo-me muda a remirar o céu...
Peço-lhe a estrela que achar mais bela:
coloco nela o teu rosto risonho...

Noite fora... noite dentro... Onde vou eu?
Encosto o rosto no vidro da janela...
Quero ser anjo... Quem escuta o meu sonho?


Maria Helena Amaro
Braga, 11 de novembro 2013.

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Dedicatórias
















(Fotografia de António Sequeira)

Vêm de longe meninos
a gritar de mão na mão...
São a música dos sinos
que me chega ao coração...

Cada escola é um festim...
cada criança, lição...
Eu sempre a dizer «que sim»
Outros a dizer-me: Não!


Maria Helena Amaro
Maio, 1990
(CEFOPE - Universidade do Minho, Braga)

domingo, 10 de novembro de 2013

Fogo na Serra



(Fotografia de António Sequeira)


Trouxe-me o vento quente o choro dos pinhais
que o fogo crepitante chorava veloz
ardia a serra toda numa agonia atroz
entre gritos, lamentos e suspiros mortais.

Caíam feitas tochas as árvores colossais
sobre a terra escaldante numa dança feroz
e o fogo vermelho rolando como noz
ia saltar no mato, nas vinhas, nos casais...

Num espanto de dor que não termina mais
olhando a serra em brasa em proporções fatais 
sinto já nem ter alma, nem coração, nem voz...

Gritam as urzes: esses homens brutais
que lançam fogo à mata são chacais
e deviam estar em cinzas como nós!


Maria Helena Amaro
Foz de Arouce
14/08/1989
(Publicado no Jornal de Serpins)

sábado, 9 de novembro de 2013

Recado (1989)
















(Fotografia de António Sequeira)

Podes levar-me tudo
mas não me levarás
a alegria de ser...
Podes fechar tudo
as portas, as janelas
para que os outros não possam escutar...
o meu grito na noite...

Podes tirar-me tudo
cioso do teu sereno querer
mas não me levarás
a alegria de ser...
Todos dizem aos outros que estou louca
que não consigo dar-te
uma paz prometida...
Podes tirar-me tudo
que não me tiras vida...

Podes criar castelos
e fechar-me
entre grades - metais...
Mas estas asas não me tiras tu
este voar entre a serra e  céu
este desejo de transportar estrelas
este roteiro que criei é meu
e meu vai ser até eu ser pessoa...
Ninguém mo vai tirar...
que a caminhada é boa!


Maria Helena Amaro
Foz de Arouce
14/8/1989

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Dia de Anos



(Ilustração de António Sequeira)

- 52 anos! Quem diria?
Ainda ontem fui menina e moça,
ainda ontem sorri de riso e troça
de tanta Rosa, Conceição, Maria!

Ao vê-las todas de laços enjeitados
de cor de rosa e vermelho vestidas,
tão donairosas, pintadas, convencidas,
que os anos passam, mas não deixam passadas...

Digo ao espelho se há rugas no meu rosto,
se o olhar é poço de desgosto,
se o meu sorriso já ninguém alcança...

Diz-me o espelho: quando a alma padece,
mas faz da vida aquilo que merece
vai ser até morrer uma criança!


Maria Helena Amaro
Esposende, 19/07/1989

domingo, 3 de novembro de 2013

Aniversário (Pai)




















(Fotografia de António Sequeira)


Pai 
que saudades tenho de ti!
Para mim não morreste:
apenas foste viajar um pouco
para espalhar melhor
as agruras da vida.
Tu estás aqui
no jornal desdobrado
na cadeira encostada
nos óculos perdidos
nas calças engelhadas
nos sapatos cambados
no arrastar de voz
no olhar distraído
na frase entrecortada
na ideia suposta
no gesto impaciente
na ordem discutida
na crítica modesta
no dar sem refletir
na desculpa estudada
no exemplo de vida
no dizer delicado
na escolha hesitante
no discurso cansado
tu estás aqui...

                              para sempre!

Maria Helena Amaro
1/10/1988
Esposende