Periodicidade de publicação de poemas

Caros leitores:
Espero que desfrutem na visita a este espaço literário. Este sítio virtual chama-se “Maria Mãe” e tem como página principal os poemas de Maria Helena Amaro.

quarta-feira, 20 de maio de 2015

Humildade


(Ilustração de Maria Helena Amaro)

O meu pecado foi sonhar com loucura
e esquecer-me de que era ninguém...
Como pode uma erva crescida na tortura
aspirar ao amor como se fosse alguém?

Nasci num campo onde urtigas cresciam
e minhas flores não puderam brotar
As outras ervas que ao pé de mim viviam
sempre invejosas quiseram-me esmagar...

Passei maus dias entre o desprezo e o pó
na lama imensa do campo inculto escuro
entre a angústia e a dor de estar só...

E quando um dia do campo me arrancaram
eu encontrei-te trepando neste muro
e as minhas folhas junto às tuas brotaram


Maria Helena Amaro
14/03/1955

domingo, 17 de maio de 2015

Ânsia


(Ilustração de Maria Helena Amaro)

Estendo as mãos a procurar na vida
alguma coisa que me encha o peito
Cheia de pó, estou eu. Num mar desfeito
anda a boiar a minha perdida!

Quis um dia chamar oiro à poeira
e nuvens brancas à cor da noite escura
Deus castigou-me transformando em tortura
o grande sonho da minha vida inteira

Qual pedinte esmolando um caminho
estendo as mãos a procurar em vão
a caridade no íngreme caminho...

Eu busco também nos mil lugares do mundo
um ideal de luz e de razão
mais sublime, mais divino, mais profundo! 


Maria Helena Amaro
13/08/1955

sábado, 16 de maio de 2015

Sonho


(Ilustração de Maria Helena Amaro)

Os meus olhos nos teus; as tuas mãos nas minhas
E um mundo de coisas muito belas...
Cravos vermelhos sorrindo às janelas
da nossa casa, refúgio de andorinhas!

Ao por do sol, doce hora dos amores,
de mãos unidas, por entre o arvoredo
Ou então de manhã, muito cedo
iremos campos fora, em busca de flores!

Nos meus braços ramos de violetas
nos olhos teus cânticos de poetas
tesouros lindos de amor e ternura...

Nas tuas mãos esguias e morenas
um apanhado das noites serenas
em que o luar é lago de ventura!


Maria Helena Amaro
22/08/1955

quarta-feira, 13 de maio de 2015

O Mundo


(Ilustração de Maria Helena Amaro)


Anda o mundo a rir à gargalhada
de mim, de ti, dele, de mais ninguém...
E cada vulto que passa na estrada
da minha vida, parece o meu alguém!

Estendo as mãos, procuro amargurada
algum caminho que me conduza ao Bem...
Amor! És tu a rir à gargalhada?
Que é o nada? E o mundo que tem?

Mundo que trazes nos teus braços suspensos
as mil sonhos da minha alma dorida
as mil  sombras de desertos imensos...

Não rias mais do meu grande tormento
Não queiras mais prender a minha vida
Deixa voar no céu meu pensamento!   

Maria Helena Amaro
22/08/1955

domingo, 10 de maio de 2015

Meus olhos


(Ilustração de Maria Helena Amaro)


Meus olhos tristes que Deus me ofereceu
vêm imagens de almas poetas
fazerem lembrar um lago cor do Céu
onde se debruçam chorando violetas!

Um apanhado de noites escuras
sem lua, sem luz, sem firmamento...
Asas negras, de aves pequenas...
Pobres fantasmas vagueando em tormento.

Meus olhos são peregrinos mendigando
em busca dum "oásis" de ternura
sorrindo, esquecendo, perdoando...

Há neles um desejo mal contido...
Há neles tanta sede de ventura...
Que julgo às vezes nunca os ter conhecido!

Maria Helena Amaro
10/04/1955

sábado, 9 de maio de 2015

Monja


(Ilustração de Maria Helena Amaro)

Meu rosto pálido, quase macerado
fundas olheiras cor da escuridão
fazem lembrar o corpo torturado
de Jesus nos dias da Paixão!

Cílios negros descem palpitantes
sobre os meus olhos cor de violetas
e os meus cabelos escuros, ondulantes
são mundos soltos de obscuros poetas...

Faço lembrar um dia a fenecer
uma sombra vagueando descuidada
por entre nuvens azuis do firmamento

Com as minhas mãos brancas a tremer
quando eu passo de luto trajada
faço lembrar a Monja do Convento!


Maria Helena Amaro
12/03/1955 

quarta-feira, 6 de maio de 2015

E tu não vens!


(Ilustração de Maria Helena Amaro)

Prometeste que voltavas, disseste que virias
na luz clara de certa madrugada...
Mas nascem e morrem, em sucessão os dias
e eu espero a tua vinda alada! ...

Quando nascem as manhãs de primavera
e as mãos ponho em pala sobre os olhos
julgo ver-te surgir entre quimera
mas no além vejo um mundo de abrolhos!

Já basta de mentira, de ilusão...
Quero ver-te junto a mim de verdade
para afagar-te com todo o meu carinho...

Espero... sonho... arquitecto em função
mil fantasias tecidas de saudade
e tu não vens... Eu sei... Eu adivinho...

Maria Helena Amaro
19/05/1955