Periodicidade de publicação de poemas

Caros leitores:
Espero que desfrutem na visita a este espaço literário. Este sítio virtual chama-se “Maria Mãe” e tem como página principal os poemas de Maria Helena Amaro.

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Bruma


(Ilustração de Maria Helena Amaro)


Logo de manhã
ao abrir a janela da alma
sinto a agonia
cobrir-me toda num lençol de bruma...
É como o nevoeiro
na praia de Esposende...
Desce de manso
estende-se no ar
e tudo prende...
Cobre-me toda
os olhos, os ouvidos,
o rosto, os braços, os seios,
os cabelos...
Cobre-me toda e se estou despida
sinto-o na pele viscoso
e aquecido
como sopro de duende.

Maria Helena Amaro
Julho, 1992

domingo, 29 de dezembro de 2013

Pausa




















(Ilustração de Maria Helena Amaro) 


Por onde andam os beijos que me deste
por que caminhos os deixei fugir
palavras são silêncios (mudo agreste)
caminhos, gestos secos, sem sorrir...

Por onde andam os sonhos que teceste
de mão dada na bruma do porvir...
Desencanto sem nome... Será teste
à minha força, ao meu ser, ao meu sentir?

Busco os teus olhos... O que deles fizeste?
Busco o teu gesto... Ternura, onde a meteste?
Busco o teu ombro... Como vais reagir?

Se fosse morta... Que pensamento este!
Talvez meu corpo fosse estrela celeste
que tu passasses no Céu a perseguir...


Maria Helena Amaro
1992
Prémio Camões - participação feminina, Sociedade Portuguesa de Autores, 1993

sábado, 28 de dezembro de 2013

Boda


(Ilustração de Maria Helena Amaro)

Também eu casei num sábado de calor
Também eu fui de branco imaculado.
Vestida de princesa rendilhado
entre risos e falas de louvor...

Também eu recebi as promessas de Amor
junto ao altar e rosas enfeitado
grinalda de rendas, rosto emoldurado
e prometi ser fiel de ventura e de frescor...

Também eu recebi com Fé e em fervor
as graças concedidas a esse novo estado
e prometi ser fiel ao homem meu Senhor...

Também eu recebi num abraço apertado
O corpo de outro corpo misto de gozo e dor
Também eu fui a noiva dum noivo muito amado...

Maria Helena Amaro
julho, 1991

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Natal





















(Fotografia de António Sequeira)


Que trazemos ao Menino
nestas folhas deitadinho...
Trazemos das nossas almas
o mais profundo carinho...

Menino Jesus
nas palhas deitado
de oiro vestido
sorri animado...

Senhora do Céu
a mãe de Jesus
embala o menino
com risos de luz

S. José escuta
os anjos dos Céus
Bendiz o seu filho
que é filho de Deus!

E nós lhe rezamos
com alma e calor
Menino Jesus
Sêde o nosso Amor!

Cantemos com alegria
à volta desta lapinha
Menino Jesus é Rei
Nossa Senhora Rainha.

Nós somos pobres pastores
vindos de terras estranhas
Trazemos nas nossas bolsas
Vinho, azeitonas, castanhas....

Pouco temos para dar
além do nosso carinho
mandai-nos a vossa Estrela
a guiar  nosso caminho.


Maria Helena Amaro
Natal, 1980

domingo, 22 de dezembro de 2013

Opção


(Ilustração de Maria Helena Amaro)



Nos momentos graves desta vida
tomaste sempre a opção mais acertada
nem sempre a mais serena e ponderada
por seres mais singela e distraída...

Tomaste do Amor a parte mais sentida
e com ele a mais ignorada
consciente da dura caminhada
que encetaste feliz e assumida...

Vejo-te agora de face retorcida
entre o sonho, a dor desencantada...
a alma em fogo, na luta dividida...

Aos que passam por ti, não dizes nada.
Onde está a opção? Rota perdida!
Quem se perdeu e nunca foi achada?


Maria Helena Amaro
Julho, 1991


sábado, 21 de dezembro de 2013

Requiem





















(Ilustração de Maria Helena Amaro)


Acabou.
Morreu o Amor.
Agora
é só despedida.
E descobrir
que estás apenas, por favor
na sua vida.

Ainda recordas o dia em que isso foi?
Não queiras recordar
que isso dói.
É dor intensa sem cor e 
sem medida.

Acabou.
É hora da saída.

Mas tu não sais...
Tu ficas serenamente
a construir de novo
um ninho feito esperança
na curva do regaço.

Tu vais ficar...
Tu vais compor uma nova canção
e na dança rotineira desta vida
vais inventar, talvez,
um novo passo...

Fica.
Nem tudo é desencontro,
desalento,
cansaço.
Nem tudo se perdeu.
Depois da tempestade.
Talvez ressurja um punhado de Sol
numa nesga de céu!


Maria Helena Amaro
Concurso «Jogos Florais» da Casa do Professor
1991
1.º Prémio Poesia Lírica 

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Encontro de Natal


(Ilustração de Maria Helena Amaro)

Fui pescador sem cana
e sem anzol...
Fui trovador de rua,
quis cantar ao Sol...
Cantei à Lua!

Fui peregrino sem capa
e sem caminho...
Judeu pobre e errante
a mendigar carinho,
suplicante...

Fui pregador de lendas
de poemas
de promessas
de risos
de estradas de luz...

Procurei verdade
paz e bem...
Só encontrei refúgio
na gruta de Belém
junto a Jesus!

Maria Helena Amaro
Natal, 2013