Periodicidade de publicação de poemas

Caros leitores:
Espero que desfrutem na visita a este espaço literário. Este sítio virtual chama-se “Maria Mãe” e tem como página principal os poemas de Maria Helena Amaro.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Sonho



Pode ser pecado
ou heresia,
mas, eu sinto assim:
neste Céu estrelado,
toda a noite a luzir,

eu vejo numa estrela esse - teu rosto
tão puro, enamorado,
para mim, a sorrir…

Então, digo: Boa Noite!
Boa Noite, meu Amor,
e vou dormir...


Junho, 2010
Inédito, Maria Helena Amaro

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Coisas minhas


A Aldeia de meus pais fica na Beira,
terra fria de gente boa e sã,
tão pertinho da Serra da Lousã,
apaixonada pelo Rio Ceira.

Vem-lhe da serra o cheiro maneirinho,
a castanha, a mel e a mimosa;
Tem a graça, a frescura de uma rosa,
a florir por entre o rosmaninho.

Terra dos meus avós, memória doce,
dos olivais cinzentos, sem idade.
Vem da nascente da Senhora da Piedade,
tem nome de água, chama-se Foz de Arouce.

Arouce e Ceira buscam o Mondego,
deslizam por encostas em sossego
e, na descida, fazem um só laço.

Está Coimbra a sorrir à sua espera,
noiva vestida de rendas, de quimera,
a estender-se num amoroso abraço.




Inédito, Maria Helena Amaro
Abril 2011

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Menino Azul

Era um menino
De rosto enfarruscado
De narizito sujo
De riso cristalino
Suave imaculado
Como branco sedoso
Dos lírios do jardim…

E o menino gostava do Azul…
Quando passavam aves
Sob o Sol diamantino
Brilhavam como sóis
As escuras meninas
Dos olhos do Menino!...

Maria Helena Amaro
In «Maria Mãe», 1973

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Crianças


Quando elas passam
Alegres de mãos dadas
De faces prazenteiras
A rir
Às gargalhadas
De laçarotes brancos
De bibes engomados
Ou descalcinhas, sujas,
Magras, esfarrapadas,
Eu escondo entre as mãos
Os meus olhos cansados
De andar outros caminhos
De procurar estradas…


Quando elas passam
De bolsa a tiracolo
De calção curto e camisola bordada
De riso quente
A ecoar nos céus
De olhos gaiatos a espelhar o sol
Entoando canções,
Quedo-me toda de alma ajoelhada
Murmurando canções…



E porque nelas vejo a primavera
A prometer Estio,
Quando as vejo passar
A rir, a saltitar,
É como se passasse
Nesta rua sem sol
Sem paz e sem amor
A promessa serena 
Dum amanhã melhor!

Maria Helena Amaro
In: Maria Mãe,  1973

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Voo







Tantas vezes voei e me perdi,
e me perdi,
em voos sem alento.                            
Perdi as asas
no furor do vento,
e as asas perdidas,
ninguém as encontrou…


Tantas vezes voei como gaivota
que procura,
e não encontra a praia apetecida…
Perdi o voo
e não mais me encontrei,
e na maré que vai,
e na maré que vem,
apenas te encontrei
Ó meu Amor
e mais ninguém!

Inédito - Maria Helena Amaro
Braga – dezembro 2009.

domingo, 13 de novembro de 2011

Nevoeiro


O nevoeiro descia na cidade
e a Avenida tornava-se num cais,
de penumbra e mistério…
Então,
eu saía pressurosa para a rua
e ia tarde fora,
a descobrir os vultos
que cruzavam comigo
estranhos e ligeiros…
na penumbra tão nua.
Na névoa cerrada da Avenida,
deslizavam pessoas como nuvens
a tremer, aos pedaços,
em estranha corrida.
E, eu pensava:
- Lá vem, lá vem, agora é um fantasma…
um duende…uma fada…
uma mulher sem pernas…
ou um homem sem braços…
Se for uma criança,
há de trazer no cabelo caído,
uma trança com laços,
e um longo vestido…


Lá ia eu a sonhar maravilhas:
- é que os fantasmas,
os fantasmas vindos no nevoeiro,
descem à cidade enevoada,
certamente a chorar
à procura das filhas…
- é que os duendes que moram na Avenida
penduram-se nas tílias
e dançam em rodopio,
sem medo,
sem cansaço,
sem frio.
- é que as fadas que percorrem Braga, vestem de rendas, de tule e de brocados,
dançam à roda,
à roda, à roda,
nas ruas, nas varandas,
pendentes dos telhados.


No nevoeiro,
no nevoeiro da Avenida,
eu encontrava sempre
um pouco de mistério,
um nada de poesia…


O nevoeiro descia na Avenida…
Eu tinha quinze anos!
Linda cidade! Amor, sem desenganos!


O meu pincel era uma estrela,
a rua, a minha tela,
e na tarde enevoada e fria,
tão misteriosa, escura
surgia uma pintura.
Inédito – Maria Helena Amaro
Braga, novembro de 2009.

sábado, 12 de novembro de 2011

Outono

Outono sem ti não é outono…
Perde aos poucos a cor e a grandeza…
Caem as folhas. Adivinho a certeza
de que os ninhos irão ficar sem dono.

No outono meus olhos se toldavam
de saudade e de melancolia,
junto de ti, ao acabar do dia,
ansiosos teus olhos procuravam.

Era a certeza de tua companhia,
preenchida de paz e de harmonia,
longe de confusão e de tormento.

Este outono sem ti, eu já sabia,
irá ser apenas nostalgia,
ao escutar a tua voz na voz do vento.

Inédito – Maria Helena Amaro
Braga, 23 de setembro/2010