Periodicidade de publicação de poemas

Caros leitores:
Espero que desfrutem na visita a este espaço literário. Este sítio virtual chama-se “Maria Mãe” e tem como página principal os poemas de Maria Helena Amaro.

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Registo


(Fotografia de António Sequeira)

Setenta e cinco anos?! «Linda idade,
não parece, não» me dizem todos.
Mas estes elogios são engodos
que me reportam à minha mocidade.

São cinzentos anos de saudade
Recordá-los assim não é tolice
Eu tinha vinte anos... brejeirice!
A alma cheia de risos e bondade.

Na mão esquerda trazia o coração
Na mão direita o sonho e a razão
O meu futuro era a terra prometida

Nesta viagem muitos me encontraram
Os sonhos que levava mos roubaram
Fiquei, assim, pendurada na vida!

Maria Helena Amaro
Julho, 2012.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

Momentos


(Fotografia de António Sequeira)

Tão longa a caminhada
o rumo tão incerto
a dor e a saudade estão por perto
em cada esquina
em cada encruzilhada...
A vida é um deserto...

Calaram-se as guitarras
morreram as canções
os olhos são de prece
os lábios orações
e as vozes de grilos cigarras
são gritos e pregões...

Procuras estrelas apagadas
nos céus pardacentos do outono...
Corpo cansado e a alma sem dono
caminhas só, no rumo tão incerto
a dor e a saudade estão por perto
em lágrimas salgadas.

Maria Helena Amaro
Novembro, 2011

domingo, 17 de janeiro de 2016

Foto


(Fotografia de António Sequeira)

Olhas dentro do teu peito,
e só encontras tristeza,
coração todo desfeito,
e corpo nu de beleza...

Foi duro o teu caminhar,
nas estradas desta vida,
e, mesmo no verbo amar,
sempre te achaste perdida...

E, agora que a vida foge...
Que fazes no dia de hoje?

Maria Helena Amaro
Janeiro, 2011 

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Vida


(Fotografia de António Sequeira)

Um pouco de harmonia e poderei sonhar...
Um pouco de fé e poderei rezar...
Um pouco de saudade e poderei chorar
Um pouco de silêncio e poderei pensar...

Um pouco de alegria e poderei sorrir
Um pouco de amargura e poderei fugir
Um pouco de solfejo e poderei sentir
Um pouco de fracasso e poderei partir...

Um pouco de poesia e poderei dizer...
Um pouco de esperança e poderei viver...
Um pouco de vontade e poderei fazer...
Um pouco de doença e poderei morrer...

A vida não se escolhe... É uma aceitação,
constrói-se com amor, com Luz
                      e com perdão!

Maria Helena Amaro
Janeiro 2011

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Esperança e vida


(Fotografia de António Sequeira)

Tantas vezes a vida foi ventura!
Tantas vezes a vida foi certeza!
Quantas vezes a vida foi ternura!
Mão cheia de luz e de beleza!

Um pouco de ilusão... Um risco de loucura.
Um nada de miragem... um traço de riqueza...
A promessa dum sonho, tornado noite escura,
e nessa noite escura, a vela acesa.

De repente, o adeus. Solidão prematura,
vida feita deserto, areia, pedra dura,
e nessa caminhada vai a alma estendida...

Solidão, vai-te embora! A minha alma procura,
um refúgio de Paz, de Infinito, de Altura,
onde cante com Fé, a Esperança e a Vida.

Maria Helena Amaro
(Poema dedicado a uma colega aposentada)
2/02/1985

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Imagens - 1957 - Esposende


(Fotografia de António Sequeira - Praia do Lombo Gordo, Nordeste, S. Miguel, Açores)

Crianças sujas, descalças
ao fundo da minha rua...
Rotas, camisas e calças,
corpo frio e alma nua.

Cheiram a peixe salgado,
a iodo, a maresia,
e correm por todo o lado,
tarde quente ou tarde fria.

Têm olhos azulados
cor do mar, do firmamento,
rostos sardentos tostados,
ressequidos pelo vento.

Sabem de cor as lições
que lhes falam de marés,
também dizem palavrões,
gritam, batem com os pés.

São montanhas de alegria...
São quadros de pobreza...
Pão nosso de cada dia
nesta praia portuguesa...

Meninos que tanto riem
esquecidos da riqueza?
Por onde anda a vossa mãe?
Vende peixe, com certeza...

Crianças sujas, descalças
ao fundo da minha rua...
São imagens de desgraças...
Tristezas... que sorte a sua!

Maria Helena Amaro
Janeiro, 2011


sábado, 9 de janeiro de 2016

Retrocesso


(Ilustração de Maria Helena Amaro)

Volto à solidão dos vinte anos,
alma solteira e coração vazio,
medo de fraudes, de erros, de enganos,
tardes de vento e noitadas de frio.

Faço caminhadas sem esperança,
volto às rimas de Régio e de Pessoa,
aos versos tristes de Florbela Espanca
e aos fados dolentes de Lisboa.

Da noite faço dia, do dia madrugada,
caminho exausta nesta longa estrada,
a recordar o que tive e perdi...

Do muito faço pouco, do pouco faço nada,
acordo morta, adormeço cansada...
Sei que não vens... Mas espero por ti.

Maria Helena Amaro
Outubro, 2010