Periodicidade de publicação de poemas

Caros leitores:
Espero que desfrutem na visita a este espaço literário. Este sítio virtual chama-se “Maria Mãe” e tem como página principal os poemas de Maria Helena Amaro.

domingo, 6 de setembro de 2015

Noite


(Fotografia de António Sequeira)

Ó noite, não cubras os meus olhos
Dá-me a luz, a luz... Dá-me o luar!
Da escura vim eu... irei voltar?
No meu regresso só levarei abrolhos...

De rasgar meus véus estou cansada
de procurar na noite me perdi
Vai-te embora, noite, vai daqui  
Dá-me o luar, a lua prateada...

Que importa o sol surgir no amanhã
Que importa a aurora ser coisa tão vã
Que importa a dor que a riqueza espezinha?
Deixa-me ver a minha alma ao luar
Porque somente na lua hei-de reinar
Eu que já de noite fui rainha...

Maria Helena Amaro
1958

sábado, 5 de setembro de 2015

Poeira do Caminho


(Fotografia de António Sequeira)

Poeira do caminho...
Poeira branca que o sol dourou
numa tarde de estio amena e quente...
Poeira do caminho...
Feita de lama, de espinhos, de fome
Perdida nas estradas
que vão até Além...
Poeira do caminho
Poeira humana, estéril, ardente, seca
como lábios de faunos
nos bosques escondidos...

Poeira do caminho
que beija rostos humanos tisnados
Tranças, loiras, negras, ciganais
Enfeitadas de goivos em flor
ou de mimosas lavres...
Poeira do caminho...
Braços erguidos aos céus em desespero,
bocas secas, rostos denegridos
Olhos perdidos no distante além
O meu além de dor...
... ... ... ... ... ... ... ...    
Serás poeira, Amor?
Poeira do caminho
que vai até Além? ...

Maria Helena Amaro
15/04/1957

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

A estrela da vida


(Fotografia de António Sequeira)
Eu vi uma estrela!
A estrela era linda, esfuziante...
E no céu azul
cintilava rutilante...

Eu vi uma estrela!
(Seria uma estrela?)
Que vaidosa era a estrelinha
de rendas enfeitadas
com vestes de luar...

E nos cabelos loiros cor de trigo
uma coroa trazia.
Coberta de pedrinhas...
- (Brilham tanto as pedras do caminho!?)
de estranha magia...

Eu vi uma estrela!
E como era bela!

A estrela sorriu, sorriu, desceu
por entre a noite escura...
- (Onde ia a estrela da vida
no céu azul perdida
enfeitada de sonho?)

A estrela desceu, desceu
e sobre mi pousou...
Eu tive uma estrela...
E tão escura sou!!!

Senhor? A minha estrela?
Que encontrei no céu?
Minha estrela perdi...
A Estrela morreu...

Eu vi uma estrela...
Eu tive uma estrela
E eu matei a estrela
que me enviou o Céu!

Maria Helena Amaro 
15/11/1957

sábado, 29 de agosto de 2015

Celeste


(Fotografia de António Sequeira)


Celeste!
Queria fazer-te uns versos,
que fizessem lembrar
a tua fronte pura,
a grandeza da tua alma
ou  o franco gargalhar da tua boca...
Uns versos que fizessem sorrir
a esfinge tisnada,
trazida das terras de Além-Mar
a minhotas paragens...
Que, ao lê-los,
pudesses ter a dourada ilusão
de escutar no silêncio da noite
uma «morna» dolente,
sob o céu azul de Cabo Verde,
ou o ciciar das folhas distendidas
da palmeira ondulante...
Que fossem para ti,
pedaços de emoções,
e os pudesses guardar, ingenuamente,
num livro de orações...

Queria fazer-te uns versos...
... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...
Se destes não gostares,
podes rasgá-los
e lançar no espaço do tempo
o papel aos bocados...
que a mão que os traçou
irá juntá-los
e enviar-tos,
para que os leves no peito vida fora!...

O mar a separá-los...
A saudade a juntá-los...

Mas, no porvir, nós seremos amigas,
como o fomos,
como o somos, agora!

Maria Helena Amaro
1958

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

À Margarida


(Fotografia de António Sequeira)

Teus olhos escuros
negros, cintilantes
fazem-me lembrar
raros diamantes

Alguém disse um dia
com ar de racista
"... Esta Margarida
tem perfil d' artista..."

Ouço melodias
- Tanta sombra vã!
És tu que interpretas
Mozart e Chopin...

Fico tão sozinha!
Vai-se o sonho alado!
Minhas mãos se estendem
no branco teclado...

Teu rosto trigueiro
de bela serrana
lembram negras faces
de certa moirana

Se as mão deslizam
no branco teclado
espalham no ar
muito sonho alado!

Parte minha amiga
mas deixa ficar
um pouco de sonho
que espalhas no ar...

Estrelas te guiem
adeus Margarida
Deus leva o teu
na Barca da Vida!

Maria Helena Amaro
1958

domingo, 23 de agosto de 2015

Entardecer


(Fotografia de António Sequeira)

Este vazio...
Este tudo de não encontrar nada
Este anseio de palmilhar na noite
Esta infinda jornada...
Este olhar perdido além... além...
Muito dentro de mim
Onde não chegam as vozes do alerta...
Este estender as mãos ao pé da  estrada
Este arrastar de pés na caminhada
de horizontes brancos...
Este oceano sem nome, sem luar
Este deserto sem medida, sem sol
Este vazio de dor!
É todo teu Senhor!

Maria Helena Amaro
1958

sábado, 22 de agosto de 2015

O menino ambicioso


(Fotografia de António Sequeira)

O Presépio da igreja
lá da aldeia era um primor
Tinham-no feito os pequenos
da irmã do Sr. Prior...

Viam-se nele os Reis Magos
a caminho de Belém
As coisas que eles levavam
ninguém teve, ninguém tem...

Toda a gentinha ficava
a olhar o Deus-Menino
Deitadinho nas palhinhas
sorridente, pequenino...

O João, um rapazito
seis anos talvez tivesse
De mãos unidas direitas
rezava a Deus este prece:

Ó Meu Menino Jesus
deitadinho nas palhinhas
Dá-me um carrinho de bois
puxado a duas vaquinhas

Dá-me um avião azul
que possa andar pelo ar
e um barco de cortiça
para pôr a navegar

Eu vou pôr no meu sapato
lá em cima na lareira
Menino Jesus escuta:
Também queria uma traineira!

Se as prendas que eu te peço
custarem muito dinheiro
Dá-me só um assobio
e um fato de marinheiro...

E um boneco de corda
da feira de S. Miguel
E um carro de bombeiros
como tem o Manuel

Sabes que não sou maldoso
que gosto de obedecer
Digno bem toda a doutrina
e no livro já sei ler...

E o Menino Jesus
tão loirinho, tão formoso
ficou triste ao escutar
o João ambicioso

E deitou-lhe um rebuçado
enrolado em papel verde
com um bilhete dizendo:
- "Quem tudo quer, tudo perde..."

Maria Helena Amaro
1958