Periodicidade de publicação de poemas

Caros leitores:
Espero que desfrutem na visita a este espaço literário. Este sítio virtual chama-se “Maria Mãe” e tem como página principal os poemas de Maria Helena Amaro.

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Manuela


(Fotografia de António Sequeira)

Manuela, no baptismo...
Dolorosa, lá na cela...
Madre, na comunidade...
Periquito, na janela...

Tantos nomes te chamaram!
Tantas coisas te fizeram!
Muito mimo te tiraram!
Muitos ralhetes te deram!

Ainda me lembro... Se lembro!
Quando chegaste pequena
Cor de rato assustado
Alta, magrita, morena...

A olhar para a «caserna»
encostadinha à parede
A pensar na fofa cama
que ficara em Cabo Verde...

Quando chegavam saudades
em dias de mau humor...
gastavas os teus quinhentos,
em pastéis da Benamor...

E se nas estantes punhas
um dedo da tua mão
parecia até que passava
por lá algum furacão!

Quantas coisas tu fazias!
- E ralhavas sem razão...
Mas, Manuela, se sorrias
acalmava a discussão...

E porque alguém te dissera
que tinhas dentes catitos
passavas horas ao espelho
a fazer olhos bonitos...

Mas, eras boa pequena!
... E tinhas bons sentimentos!
A toda a «malta» estendias
a lata dos mantimentos...

Agora que vais partir...
Como eu outrora parti...
Tenho saudades Manuela
Tenho saudades de ti!

Maria Helena Amaro
(Dedicado a uma colega)
1958

domingo, 16 de agosto de 2015

Prece


(Fotografia de António Sequeira)

Senhor que fizeste azul
o céu pertinho do mar
as cumeadas de neve
E a ténue luz do luar
e a triste violeta
que na sombra se disfarça
E as flores da valeta
feitas de pureza e graça
- Faz também azuis azuis, Senhor
os olhos do meu Amor! ...

Senhor que fizeste bela
a borboleta azonjada
e ardente como o fogo
a rosinha perfumada
E humilde como o pó
a linda urze do monte
E transparente de luz
o fiozinho da ponte...
- Faz também puro, Senhor
a alma do meu Amor!

Maria Helena Amaro
1958?

sábado, 15 de agosto de 2015

Menina de dor


(Fotografia de António Sequeira)

Na hora do amor
tu estarás de pé
esperando ansiosa
o sinal da verdade...
Tuas mãos hão de erguer-se lentamente
como orando à tardinha
ao cair das Trindades...
Numa prece de sonho
que só tu compreendes
O céu será azul
As estrelas brilharão com fulgor
E tu
a menina de dor
hás de sentir nos teus olhos profundos
o orvalho da fé
Na hora do amor
no teu jardim os botões carminados
hão de abrir-se a par risonhamente
diante da ventura
Na hora do amor
tu saberás dizer não à loucura
Dizer sim à razão
E serás feliz eternamente
no teu sonho de luz...


Maria Helena Amaro
1958

   

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Albertina


(Fotografia de António Sequeira)

Albertina!
Queria fazer-te uns versos
Ridentes como o sol da primavera
que dissessem um pouco
do teu sorriso louco
Do teu olhar cheiinho de quimera...
Do teu passo miúdo, saltitante.
Sobre róseas estradas...
Da tua boca voltada para o sol
em francas gargalhadas!
Que fossem contigo vida fora
a espalhar saudades
e tal como agora
quem os lesse
visse neles preciosas verdades.

Mas as musas caídas no caminho
morreram ao sol por
E os versos saíram sem beleza
sem sombra de frescor...

O teu curso terminou...
Eis que te vais de lábios a sorrir
a novos horizontes
risonha, confiada
Quantos sonhos tu levas
suspensos nesse olhar
de criança mimada!

Quedo-me toda a meditar
na menina que  és
E sinto uma vontade quase grande
de lançar com meiguice
um brinquedo a teus pés...

... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... 

Deus te dê a ventura sonhada
nas curvas do caminho...

Maria Helena Amaro 
1958 

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Ela


(Fotografia de António Sequeira)

Traz nos olhos um mundo de ilusão
Nesses olhos cor de céu primaveril
Na boca risos loucos, sonhos mil,
Futilidades, quimeras, ambições...

Traz na cabeça cor de trigo maduro
projetos fantásticos irreais
Traz nas mãos pequenas... Que traz mais
naquele olhar azul, divino, puro?

Olhos bem, muito atentamente
aquele rosto de anjo e de mulher
aquele olhar aéreo e ardente

E murmuro a sós em ovação
quem dera que tivesse dentro dela
um ideal de luz e perfeição...

Maria Helena Amaro
1955

domingo, 2 de agosto de 2015

Visão


(Fotografia de António Sequeira)

Ele surgiu na luz da madrugada
numa manhã de certa primavera...
Ele surgiu, Senhor!
Será uma quimera?

Ele surgiu na luz do meu poente
num por do sol que não tivera aurora...
Ele surgiu, Senhor!
Então porque  demora?

Ele surgiu vestido de brancura
e da noite fez estradas de luz...
Ele surgiu, Senhor
Será a minha cruz?

Ele surgiu mais rico do que eu
e em rosas a vida tornou.
Ele surgiu, Senhor
Então, quem o achou?

Ele surgiu...
Senhor! Ninguém o viu?!

Maria Helena Amaro
22/11/1957 

sábado, 1 de agosto de 2015

Desabafo


(Fotografia de António Sequeira)

Senhor!
Dá-me um caminho, uma estrada
sem luz, sem céu, sem firmamento
para que eu possa caminhar abandonada
sem ter um guia...
Dá-me um sonho mesmo que sinta sede
duma maior ventura...
Dá-me um pranto mesmo que sinta a dor
de não poder chorar...
Dá-me bons olhos mesmo que eu veja a vida
a esvair-se em noite...

Senhor! Dá-me um nada
mesmo que eu peça só
que tu me dês um Tudo!

Maria Helena Amaro
22/11/1958