Periodicidade de publicação de poemas

Caros leitores:
Espero que desfrutem na visita a este espaço literário. Este sítio virtual chama-se “Maria Mãe” e tem como página principal os poemas de Maria Helena Amaro.

domingo, 15 de dezembro de 2013

Solidão




















(Ilustração de Maria Helena Amaro)

Aqui

é o quarto escuro
onde a solidão me mete de castigo
quando o meu coração se porta mal
e vai janela fora questionar...

Aqui

é que eu encontro o meu ego fechado
a minha sombra em meandros talhada
a minha porta verde
persiana corrida
mansão deserta
de goivos enfeitada...

Aqui

ninguém vem perguntar porque chorei
ninguém vem dizer porque menti
ninguém vem perguntar porque parei...

Aqui

é o quarto escuro
onde a solidão me mete de castigo
quando pergunto à vida o meu sinal
e a Deus o eco de outros passos...

Aqui 

sou eu
perdidamente Helena
ou Helena perdida
a que ninguém conhece...
Aqui
lápis, caneta, papel, livro,
paleta,
apaixonadamente
no silêncio do meu quarto escuro
renasço para a vida:
Sou poeta!


Maria Helena Amaro
Março, 1991

sábado, 14 de dezembro de 2013

Diálogo


(Ilustração de Maria Helena Amaro)

Atiraste um sorriso,
disseste uma palavra,
mas a palavra perdeu-se no ar,
porque eu não a prendi...
Ficou só o silêncio,
povoado de sorrisos vagos,
de gestos estudados,
de frases meias feitas...
Como é difícil dizer
dialogar
como é custoso distribuir
sorrisos
e não perder as palavras sinceras
que se perdem no ar...
Atiraste um sorriso
como quem quer falar.
O meu silêncio foi a pedra de toque:
convidou-te a calar.

Maria Helena Amaro
Março, 1991

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Presente





















(Ilustração de Maria Helena Amaro) 



Quero dizer
que o meu presente é feito de
passado
e que o futuro tem
já sinais de presente.
Morreram sonhos
mas os fantasmas deles
vêm visitar-te pela noite fora
e ficam comigo
numa agonia lenta.
O meu presente
é feito de fantasmas.
Fantasmas que não morrem
que não passam
porque querem povoar o meu futuro
e o meu futuro é feito do presente.


Maria Helena Amaro
Março, 1991.

domingo, 8 de dezembro de 2013

Recado


(Ilustração de Maria Helena Amaro)


Vou ao teu encontro
com a alma cheia de lágrimas
mas tu não vês...

Caminho para ti
com as mãos cheias de promessas
mas tu não vês...

Ocupo a tua estrada
com os olhos cheios de paixão
mas tu não sentes...

Bato a tua porta
chamo em alta voz
mas tu estás sempre ausente

Puseste cadeados nos portões
e grades nas janelas...
Que me importa chamar
a toda a hora...
e gritar um nome ou um sinal?
Ninguém ouviu falar...
Ninguém sabe de ti...
Tu não vais responder.
Perdi.

Maria Helena Amaro
Março, 1991

sábado, 7 de dezembro de 2013

Ofertório





















(Ilustração de Maria Helena Amaro)

Nós vos trazemos Senhor
a nossa Fé
luminosa e ardente
como a chama que vai incendiar
estas velas singelas...
Aceitai-a Senhor
e fazei das nossas almas
fogueiras muito belas.

Nós vos trazemos Senhor

o pão caseiro
e os frutos da terra
que no altar irão
levar canseiras
alegrias e dores...
Aceitai-as Senhor
aceitai tudo...
Os cuidados sem fim dos nossos pais
o trabalho dos nossos professores
e o nosso estudo...

Nós vos trazemos Senhor

o cálice que guardará o vosso Sangue
e as hóstias que serão nosso alimento.

Aceitai-as Senhor

nisso pusemos
a nossa vida
o nosso mundo
o nosso tempo...

Nós vos trazemos Senhor

nas nossas mãos cheias de ternura
um livro e um brinquedo...
Aceitai-as Senhor
Sede o nosso mestre na cultura
Sede o nosso guia no folguedo.

Nós vos trazemos nas nossas mãos pequenas

as renúncias que fizemos cada dia
aceitai-as senhor
em nome das crianças  que trabalham no mundo
por um pouco de pão e nenhuma alegria...

Nós vos trazemos Senhor

as flores crescidas por vontade
do Pai que está no Céu...

Aceitai-as Senhor

nós queremos ser puros como elas
crescer em graça e luz
no jardim da bondade...

Aceitai tudo Senhor

É o que temos...
em alegria e dor
É o nosso Amor!


Maria Helena Amaro
Páscoa, 1991

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Vermelho


(Ilustração de Maria Helena Amaro)

Chama-se raiva o meu amor
chama-se raiva ...
Chama-se raiva e ninguém vai aportar...
Chama-se raiva, o meu amor
chama-se raiva
chama-se raiva e ninguém vai parar...

Chama-se Dor, o meu amor
chama-se Dor
chama-se dor e ninguém vai chorar

Chama-se desencanto o
meu Amor
chama-se desencanto e
ninguém vai falar...

Chama-se fuga o meu amor
chama-se fuga
chama-se fuga e
ninguém vai chamar...

Chama-se Sonho o meu amor
chama-se sonho
chama-se sonho
e ninguém vai cantar...
Raiva
Desencanto
Dor
Fuga
Sonho
é o conjunto do meu
viver sereno
estagnado e pobre
como um lago de
cisnes
que foram metralhados...

Maria Helena Amaro
Foz de Arouce, agosto de 1990

domingo, 1 de dezembro de 2013

Momentos



















(Ilustração de Maria Helena Amaro)

Estás tão só
e tens tanta pessoa
à tua volta...
Gostas das pedras
das areias, dos fetos...
Chamas de nome
às silvas calcinadas
e até as cobras vêm dançar para ti!

Ser primeiríssimo

do primeiro mundo
não sei com quem conversas
tantas vezes
nem sei o nome da tua solidão...

Vens de outro mundo

que não é teu...
Procuras outro ser que conheces
ensaias linguagem
que ignoras...
Ninguém sabe da tua solidão...
Ninguém conhece o teu perfil talhado.
Ninguém encontras, nem ninguém procuras...

Mas a Esperança

vai andar na rua
e na próxima esquina
da cidade
tu vais encontrar o som cadente
da viola encantada...


Maria Helena Amaro
Foz de Arouce
Agosto, 1990