Periodicidade de publicação de poemas

Caros leitores:
Espero que desfrutem na visita a este espaço literário. Este sítio virtual chama-se “Maria Mãe” e tem como página principal os poemas de Maria Helena Amaro.

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Reflexões


Só sei
só sei que nada sou
que nada tenho…
Os sonhos que vivi
também desdenho.
Na lembrança que vai
na lembrança que vem
as coisas que perdi
são de ninguém…
Ninguém as quer
ninguém as tem…

Da vida nada sei,
nas ruas que escolhi
não sei
quando ou onde
me perdi.
Por onde caminhei
apenas sei
que tudo partilhei
e quando me encontrei
estava solitária
separada de ti.

Das loas que cantei
poemas que escrevi
não sei, não sei,
se os guardei
perdidamente em mim

ou os perdi…
Por onde caminhei
apenas sei
que tudo partilhei
e quando me encontrei
estava solitária
separada de ti.

Inédito, Maria Helena Amaro

 Março, 2011

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Lembras-te amigo... (Recordando Fernando Mota Soares)

«Lembras-te meu Amigo? Os teus 18 anos, 
os meus sapatos rasos, as saias rendilhadas,
os teus olhos gaiatos a tecer desenganos,
as minhas tranças quase despenteadas?

Os teus livros de estudo de cantos retorcidos,
enrolados nas mãos, com certo nervosismo?
Os versos comentados já lidos e relidos,
que tu declamavas cheio de romantismo?

Cantavas os teus sonhos, as tuas paixonetas,
quimeras de rapaz que ninguém conhecia.
Voavam tão juntinho nossas almas poetas
e a vida ia tão longe em coisas de magia…


As minhas companheiras na varanda a gritar,
a rir, a bater palmas, em grande rebuliço;
- Ó menina, então? Ou não querem jantar?
Conversem amanhã…Acabem lá com isso!


Separou-nos a vida. O tempo foi veloz.
Passaram trinta anos! Ou foi há pouco tempo,
que dissemos adeus, que nos tremeu a voz,
que o mundo transformou o nosso encantamento?


Foi ao dar-te um abraço, trinta anos passados,
ao ver os nossos filhos tão jovens como nós,
que lembrei a Avenida, canteiros enfeitados,
que ouvi dentro de mim a cantar uma voz!


Olhando ao espelho meu rosto desbotado,
os meus cabelos curtos, que a vida fez em neve
deixei fugir a alma aos dias do passado…
Revi essa Amizade tão donairosa e leve.»


Maria Helena Amaro, 1987
(Reunião de Curso 1955-57 realizada em Braga, em junho de 1987)


Nota da autora: Perdemos um Amigo. Ganhamos uma saudade.
            «Os que amamos não morrem, antes partem antes de nós». Esta frase permanece viva no nosso quotidiano com a separação dos nossos pais, familiares, amigos. Coube desta vez ao Curso da Escola do Magistério de Braga, 1955-1957, perder um companheiro, um colega, um amigo. Todos nos lembramos dele: jovem, hábil no discurso, inteligente, disponível, poeta e prosador.
            Sempre que a Reunião do Curso se realizava, lá estava o Fernando Soares, pendurado nas recordações, a relembrar com uma lagrimazinha aflorada nos olhos e, com um poema nas mãos, a saudar todos com a sua habitual mensagem, como se fossemos «o Curso dos cento e vinte irmãos». E éramos. E somos, ainda que alguns já tenham partido e outros a vida os tenha separado de nós.          
            Tu partiste, Amigo, mas não morreste, porque sempre que nos encontremos na nossa Reunião de Curso, vamos falar de ti, vamos recordar-te como se estivesses junto de nós.
            Que Deus ouça no Céu os teus discursos e os teus poemas.
Maria Helena Amaro
Curso 1955-1957)
Braga, 22/11/2011

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Esperança


Não guardes o tormento
em flocos de algodão,
nem apagues os espinhos
escondidos na alma…

Não leves a passear o teu pequeno mal
nem cantes aos outros a dor que não dominas.

Há feridas que não chegam a sarar
e cicatrizes que se tornaram chagas…

A tua dor
é uma rosa que ri na madrugada
porque vai desabrochar
cetinosa e ridente
ao sol do teu meio dia…

Tem esperança
quando a noite surgir
alguma estrela brilhará de novo.
Aleluia!

Maio, 2010
Inédito, Maria Helena Amaro

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Pescador de Esposende


O farol foi a luz da tua vida…
O choro do mar o teu lamento…
Embarcadiço nas asas do vento,
no por do sol, fizeste despedida.


Cresceu-te a barba; branqueou-se o cabelo.
Já não és mais o jovem pescador,
a agoirar os que têm vigor,
apenas és o Velho do Restelo.


Se eu pudesse, meu saudoso Amigo,
cantar em verso a tua vida austera,
num trabalho que custa, gasta, prende…

Tantas coisas que penso e que não digo,
tantos naufrágios de uma outra era,
num livro só, eu poria – Esposende.


Maria Helena Amaro
Inédito – 1 de maio 2009

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Trevim


Perguntei à montanha
que fizeram dos meus,
desses antepassados
que nunca conheci.
E a montanha se abriu
e apontando os Céus,
serena respondeu:
- serenos e felizes
já repousam ali…

Perguntei à montanha
que caminhos percorro,
entre o sol e o vento,
que se estendem velozes.
E a montanha calou,
vestida de cinzento,
cintilante de luz,
na noite se estendeu
em gemidos atrozes.

Perguntei à montanha,
na luz do amanhecer,
pelos rios que cantam
entre fragas partidas.
E a montanha sorriu,
estendeu os seus braços,
chamou os castanheiros,
dançou nos olivais
e não fez despedidas.

Por isso é que eu a miro,
aqui do meu terraço,
aqui lhe canto loas
e mando o meu abraço.
Que a montanha foi
o riso dos meus pais,
que a viram de neve,
tão perdida de amores,
em voo lento e leve,
a chamar os açores.

Maria Helena Amaro
Inéditos
Lousã, outubro - 2007

domingo, 20 de novembro de 2011

Silêncio


Gostava de compor
o mais belo de todos os poemas…
Gostava de cantar
a mais bela de todas as canções…
Não sou capaz.
Remeto-me ao silêncio
das coisas apagadas ,
e só consigo
ler e meditar
o meu pequeno livro de orações
em noites sossegadas.

 


Inédito – Maria Helena Amaro
16/11/2010

sábado, 19 de novembro de 2011

Gaivota Velha



Se eu fosse gaivota
voava sobre o mar
à procura de uma doce sereia
que viesse cantar
a mais bela de todas as canções…

Se eu fosse gaivota
voava sobre o mar
à procura de um belo pescador
que saciasse em mim
a fome de cantar…

Se eu fosse gaivota
voava sobre o mar
à procura de uma fada ou duende
que me levasse nas asas
pois as minhas
tão velhas e cansadas
só voam já
sobre o mar de Esposende.

Inédito, Maria Helena Amaro
Janeiro, 20, 2011