Periodicidade de publicação de poemas

Caros leitores:
Espero que desfrutem na visita a este espaço literário. Este sítio virtual chama-se “Maria Mãe” e tem como página principal os poemas de Maria Helena Amaro.

sábado, 7 de janeiro de 2012

Saudade


Quanta riqueza passou nas minhas mãos!
Quantas montanhas de riso e de ternura!
Quando tratei os alunos como irmãos
E fiz do meu trabalho uma aventura.

Na caminhada nunca estive sozinha,
nos dias mais sombrios de amargura.
A Escola foi sempre uma vizinha,
que me tornou a vida menos dura.

Agora que a jornada terminou
e a luz da Escola se apagou,
tornando a minha vida mais sombria;

Recordo o oiro que nas mãos me passou…
Nada recebo e também nada dou…
A Saudade é o pão de cada dia.
Inédito – Maria Helena Amaro
Braga, fevereiro - 2004

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Manhã


Vamos conversar
Anda daí.
A tarde é longa; o horizonte é nosso…
Sinto-me leve
O sol às gargalhadas
Anda louco de luz por sobre a neve
A espalhar riqueza nas estradas…

Passam crianças
Crianças rotas aos bandos no caminho…
Lá vou com elas
A sorrir de mãos dadas…
Murmura o povo:
- Olha que tonta aquela cotovia
Rejeita o pão p’ra chegar às estrelas!...
Mas eu… mas eu lá vou com elas…

Hei de cansar as pernas a correr
Hei de banhar-me toda à luz do Sol
Hei de rir da tristeza
Hei de gritar
Hei de fazer do mato asas de renda
E com elas voar…
Se o Céu é tão azul…
E depois a descida?
Ah? Não importa
O que importa é empurrar a Vida? ...
………………………………………………………..
Ó meu Amor
Como é tão feio
Num dia assim de Sol
Este uniforme de pessoa crescida !!! …


Maria Helena Amaro

In, «Maria Mãe», 1973

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Se ouvires a voz do vento...


Se ouvires a voz do vento
chorar entre os pinhais
e o grito das gaivotas
suspensas sobre o mar
não pares no caminho,
não queiras escutar,
que o vento e as gaivotas,
só chamam temporais.

Se ouvires a voz do vento,
cantar entre os trigais,
à hora em que o sol
é rubro diadema,
sou eu que te procuro
e não encontro mais
e faço dessa busca
uma razão suprema…

Se ouvires a voz do vento,
saltar sobre os beirais
e a chuva miudinha
cair sobre o telhado,
recorda-te de mim
que já não sou miragem
que as asas perdi
numa longa viagem.

Cansada de sonhar
regressei ao passado…
Se ouvires a voz do vento…
dançar sobre o telhado…

Inédito, Maria Helena Amaro
Braga, fevereiro, 2006

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Outono (2)


O vento passa a chorar
Ao longo dos pinheirais...
Cai a chuva de mansinho
Na poeira do caminho...
- Ó vento, não chores mais!

Dançam folhas de arvoredo
Ao longo da minha rua...
As aves choram no ninho...
Os pobres pedem carinho...
- Ó vento, que Dor a tua!

A caminho da Escola
Passam crianças descalças
Uns levam rotas as calças
E outros a camisola...
Vão alegres, de mãos dadas,
A chapinhar os regatos.
Nunca usaram sapatos
Ou alpercatas bordadas...

- Ó Vento, pára um instante,
Deixa passar as crianças!
Deixa-as passar a sorrir...
- O que dizes em segredo
Às folhas do arvoredo
Elas não devem ouvir...
...........................................
...........................................
- Ó Vento, não chores mais!
A tua Dor é quimera!

Deixa passar as crianças
Nelas vai a minha alma
Toda vestida de Esperança
Sedenta da Primavera!


Maria Helena Amaro
In, «Maria Mãe», 1973 

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Cântico negro de amanhã




Quebraram-se os cristais…
Fecharam-se as janelas…
E os Mendigos da Fé
Ficaram à porta da rua
A espreitar o Céu…
- Ai a tarde sem Sol parece Noite!

Na calçada da rua
Passa o cortejo dos ideais falhados…
E o riso das crianças
Já não fazem sonhar…

Silêncio.
Dor.
Anseio infindo de perfurar espaços
E Agonia surda de sentir os braços
Demasiado curtos…

Andam desejos de Deus em cada olhar…
Sonhos são brados…

E na multidão
As almas sem Esperança
Dobram-se todas
E gritam:

- Ninguém O viu passar!
- Ninguém O viu passar!


Maria Helena Amaro
In, «Maria Mãe», 1973 

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Cântico Branco


Venho de longe, de países sem nome
De cidades sem luz
De caminhos sem fim...
Trago comigo os meus sonhos ciganos
Os meus risos de dor
Os desalentos de tardes sem ocaso
De manhãs sem aurora
De estios sem sol
De marés sem espuma
De outonos sem cor...

Venho de longe
Cheguei ontem na calada da noite
E repousei na fé
Amanhã
Fugindo ao desespero
Irei tentar de novo
À conquista da esperança...
Venho de longe...
(onde encontrar guarida?)
A procurar em vão
No mundo ando perdida!!!
... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...
... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...
Senhor! Eu tenho a Vida!


Maria Helena Amaro
In, «Maria Mãe», 1973

domingo, 1 de janeiro de 2012

Pausa ( III )


Se soubesse que eras infeliz
Ia pedir ao Sol
Uma lágrima de fogo p'ra chorar...
Mas,
Como de ti não dizem nada
Eu fico-me assim
Parada
A escutar...
Até que surja nova madrugada.

Maria Helena Amaro
In, «Maria Mãe», 1973.