Periodicidade de publicação de poemas

Caros leitores:
Espero que desfrutem na visita a este espaço literário. Este sítio virtual chama-se “Maria Mãe” e tem como página principal os poemas de Maria Helena Amaro.

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Dia dos Avós - 26 de julho (Casa do Pombal - Versão 2)


(Ilustração de Maria Helena Amaro)


«Casa do Pombal - Versão 2»
Dia dos Avós – 26 de julho 2013

Até ao cimo da íngreme ladeira,
ficava a casa de enorme paredes cercada.
Dava-lhe acesso o portão de madeira,
de aldraba negra, em ferro bem forjada.

«Abram a porta!» - Gritava a avó chamando.
«Abram a porta que o pastor quer entrar!»
As doces pombas espantavam-se em bando,
iam serenas no telhado poisar.

O pátio enorme cheirava a rosmaninho,
a feno verde, a cidra, a hortelã.
Os pardalitos pipiavam no ninho,
entontecidos com o sol da manhã.

Casa de agricultor! Tanto trabalho,
tanta lida, tanta vida, tanto ardor!
No tempo da azeitona, ceifa ou malho,
Trabalhavam até o sol se pôr!

Um grilo tonto na lareira escondido,
uma cigarra perdida no pomar,
a tontinegra com o seu alarido
compunha árias em noites de luar.

Vinha o cheiro de mosto do lagar,
vinham sacos de farinha do moinho,
vinha azeite da talha a gotejar,
vinha fruta, hortaliça, pão e vinho.

Primeiro foi a avó que foi embora,
cansada de trabalho e de sofrer.
Em cada mês, em cada dia, em cada hora,
doce lugar ficou por preencher.

E houve um dia em que todos partiram,
malas na mão e na garganta um nó.
Morreram uns, outros logo fugiram
ao trabalho da terra feita pó.

Fechou-se a casa, o avô ficou só;
Alquebrado, queixoso, sem ninguém…
E começou a andar… metia dó…
pela casa dos filhos: um vai/vem…

Envelheceu a casa. Em todo o lado,
Cresciam ervas… tudo era solidão.
Subiam as silvas até ao telhado
E cogumelos enfeitavam o chão.

Mas, um dia o milagre aconteceu.
Alguém a viu, alguém a desejou,
e a Casa do Pombal que se perdeu
numa alegre moradia se tornou.

Casa dos meus avós, das minhas tias,
da minha infância feliz e descuidada,
passo por ti e só sinto alegrias,
ao ver tuas paredes restauradas.

Sejam felizes os que vivem nela,
os que enfeitaram de flores a calçada,
pois colocaram vasos na janela
e fizeram da casa uma pousada.

Quando vou a Foz de Arouce de abalada
e antevejo essa casa florida,
encho de amor a minha madrugada;
São meus avós o chão da minha vida.

 
Maria Helena Amaro
Braga, alterado em julho 2013

 

Sem comentários:

Publicar um comentário