Periodicidade de publicação de poemas

Caros leitores:
Espero que desfrutem na visita a este espaço literário. Este sítio virtual chama-se “Maria Mãe” e tem como página principal os poemas de Maria Helena Amaro.

terça-feira, 4 de março de 2014

Regresso




(Ilustração de Maria Helena Amaro)






Quis ter um reino e só tive ilusão...
Quis ter Amor e só tive loucura...
Quis ter riqueza e só tive amargura...
Quis odiar e não tive perdão...


Quis ser rainha e Deus fez-me mendiga...
Quis ter prazer e tive sofrimento...
Quis ser cantora e Deus pôs um lamento
na minha boca de linda rapariga...


Quis a meus pés prostrado o mundo inteiro
sonhei, vivi, lutei pela ventura
e na estrada cai perdida e morta...


Deus veio erguer-me do abismo profundo
ensinou-me a rir da desventura
sempre que ela bata à minha porta...


Maria Helena Amaro
1957  

domingo, 2 de março de 2014

Moinhos de ventos













(Ilustração de Maria Helena Amaro)




Moinhos de vento! Nunca os viste
de velas brancas redondas eternamente?
Bandeiras rotas de exilado triste
ondulando ao vento docemente...


Que pedem eles voltadas para o Céu
de velas rotas redondo eternamente
fantasmas brancos de certo mausoléu
desenhados na sombra do presente...


Farrapos brancos, paus estilhaçados
num raque, raque, raque eu vos vejo girando
no céu azul, esguios, levantados...


Sois a imagem da minha vida quando
eu levantava os meus braços cansados
ao Infinito, a Fé, implorando!...


Maria Helena Amaro
1957  

sábado, 1 de março de 2014

Ilusões




(Ilustração de Maria Helena Amaro)


As nossas ilusões são aguarelas
esboçadas no nosso pensamento
irreais, suaves, muitas delas
traçadas pela mão do sentimento


As nossas ilusões são rosas belas
fustigadas de longe pelo vento...
Nuvens etéreas, gigantescas estrelas
que vamos buscar ao firmamento...


As nossas ilusões... Coisas singelas
juras, promessas, sofrimentos.
Mãos cheias d'oiro... Que são elas?


Clareiras sem fim, longas janelas
D'onde avistamos entre fugas do tempo
os dias belos ausentes de porcelas...


Maria Helena Amaro
1957

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Poema do entardecer...






(Ilustração de Maria Helena Amaro)


É impossível que eu tenha escrito
Tantos sonetos repassados de dor...
Fui eu quem os cantei ou foi o Amor?
Se fui eu não sei... nem acredito...


Ainda há pouco quando os soletrei
alguém me disse com voz emocionada:
«Quem os cantou? Pobre alma torturada!»
E eu respondi: "Quem os cantou não sei!...»


Não sei... Não sei... Só sei que fui alguém
alguém muito diferente do que sou
alguém sem vida, sem começo ou fim...


Fui eu quem os cantei? Ninguém! Ninguém!
O grande Amor que eu cantei passou
E eu passei... (Esqueci-me de mim!)


Maria Helena Amaro
1956

domingo, 23 de fevereiro de 2014

É Natal


(Ilustração de Maria Helena Amaro)

É Natal
Estava escrito que era urgente e necessário
celebrar o Natal todos os dias


Hoje e sempre, será natal!


E as pessoas celebravam o Natal
só uma vez por ano
cada um a seu modo
segundo o seu viver.


Estava escrito
que as crianças deixassem de sofrer
que os velhos parassem de chorar
que os jovens não quisessem descrer
que os mendigos deixassem de pedir
que os ricos soubessem repartir
que os humildes pudessem censurar
e os poderosos descer, descer, descer.
Nem guerra nem rancor,
palavra de ordem Amor.


Certa manhã
tornou-se urgente e necessário
chamar a todos os homens e dar-lhes por igual
o ouro, a prata, o pão e a fartura.
Abriu-se o livro
e todos o podem ler
- Trabalho e Paz, Amor e Alegrias
Agora
e no futuro
será urgente e necessário
celebrar o Natal todos os dias


Maria Helena Amaro
Natal, 1975
Publicado em  "Casa do Professor" 

sábado, 22 de fevereiro de 2014

Mensagem para Timor






(Ilustração de Maria Helena Amaro)


Mando-vos o barco
que quis ir a Timor
carregado de Protestos
e de Esperanças.
Colocai-o nos olhos das Crianças.
Elas ouvem notícias...
Elas leem jornais...
Ouçam-nas.
Escutem-lhe os gritos,
estudem-lhe os gestos,
vejam os traços que pintam no papel.
Elas falam de Paz...
Da liberdade...
Da tristeza, de Dor...
Colem-no todos nas ruas da cidade,
nas paredes, nas janelas, nas postais,
num Protesto de Amor.
Porquê Porquê Porquê
Por causa de Timor,
não acreditarão nos Homens
nunca mais! 


Maria Helena Amaro
Natal, 1994
Jogos Florais- Casa do Professor
1º Prémio - Poesia

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Aniversário (1997)


(Ilustração de Maria Helena Amaro)


Vejo-me ao espelho:
Tenho sessenta anos!?
Vieram rosas
doces
risos
sons
Porque todas as coisas
tem medida certa
controlada?
Nunca contei o tempo
Deixei o tempo passar
despercebido
e fui com ele
na vida de mão dada...
O tempo é só mensagem.
Talvez sessenta anos
sejam o meu bilhete
de viagem.

Maria Helena Amaro
Julho, 1997.